Palavras escritas; erotismo e sensualidade, imagens da vida; sonhos e realizações. Um mundo em movimento...
Terça-feira, 6 de Dezembro de 2005
Parte I - Capítulo V - Crescer, criança...
Montemuro2.jpg


Tanto na alegria como na tristeza, na boa saúde como na má doença, no bom como no mau tempo, Zé barbeiro e lavrador, era o amigo, o companheiro, o confidente, o cúmplice e o amante querido, com quem Maria - um dia -, deu o nó matrimonial, naquela igreja matriz das Terras de Santa Maria.
O nó matrimonial, que no entanto, teria os seus dias contados...
É que o destino nem sempre é grato para os humanos mortais, e muito menos para aqueles que vivem exclusivamente da força dos seus braços, do seu trabalho.
Pelas dificuldades - sempre presentes e crescentes -, que Zé e Maria, no seu dia a dia, enfrentavam – pouco ou nada aliviadas pelos parcos tostões que Zé ganhava na arte de rapar caras e cortar os cabelos – tanto aos vivos como aos mortos -, agravadas ainda pela penúria na vida dos camponeses mais pobres -, o casal viu-se constrangido a tomar a resolução, drástica, de devolver aos donos parte das terras que ambos trabalhavam, e de Zé ir aventurar-se, por esse desconhecido mundo, à procura da sonhada e tanto apregoada árvore milagrosa que produzia as patacas.
Com a carta de chamada na mão, e depois de à pressa ter aprendido a fazer uns gatafunhos – dos quais desconhecia o real significado -, a que pomposamente chamava seu nome, um dia Zé barbeiro lá se foi, de malas aviadas para as terras de Vera Cruz, com o coração galopando de ansiedade, e uma leve esperança espelhada nos olhos de um dia de lá voltar, deixando para trás de si, a alimentação e educação dos filhos, um montão de trabalhos agrícolas, e mais uma elevada dívida a pesar nas costas da mulher.

*

No momento do adeus a família mais próxima foi-se despedir dele.
Alguns amigos também passaram pela casa. E assim – entrando este e saindo aquele -, a noite passou mais depressa.
Passava pouco das quatro horas da madrugada, num despontar de dia chuvoso e triste, quando os três vizinhos mais chegados – o Manel, o Jerónimo e o Correia, acompanhados das respectivas mulheres -, bateram à porta:
- Zé, está na hora!... – disseram.
- Deixa-te de lamúrias e vamos embora. Olha que a carreira passa ás seis...
- Temos de nos apressar...

Eram os amigos e companheiros de sempre – da juventude, dos bailaricos, das zaragatas, dos namoricos, e dos trabalhos muitas das vezes mutuamente partilhados -, que acompanhariam Zé barbeiro até à paragem mais próxima da carreira do Escamarão. Mais tarde, no cais de Leixões, já na cidade do Porto, Zé barbeiro embarcaria no vapor North King, com destino ao Rio de Janeiro.

Faziam sempre assim.
Sempre que um amigo abandonava a terra, a família e os amigos, acompanhavam-no.
Como se fosse um adeus...
O próprio funeral.
As mulheres ficavam com quem ficava...
Davam conforto.
Choravam juntas.
Ajudavam, às vezes...

Zé barbeiro abraçou a mulher, os quatro filhos mais velhos, e rapidamente lá se foi! Por mero esquecimento ou aflito desespero – ainda hoje se não sabe a verdade -, não se despediu do pequeno João – agora com seis anos de idade -, nem da filha mais nova – de quatro. No ventre de Maria ficava ainda uma outra – que só veria o mundo sete meses mais tarde...
O pequeno João – de olhos arregalados, e com o coração aos saltos -, apercebeu-se de tudo.
Da mala.
Do farnel.
Das conversas.
E até do choro disfarçado...
Em casa, nem os pais nem os irmãos mais velhos, tinham desvendado o segredo. Era prática corrente na aldeia. Quase pecado, quando se falava...

A noite estava escura.
Molhada.
E metia medo...
Em dado momento, no soalho carunchento da sala – entre abafados soluços -, ouviram-se uns passos leves. E do quarto de Maria, veio uma voz meio rouca:
- Quem anda aí?
- Sou eu, que vou mijar...

Era uma desculpa.
A bexiga tinha as costas largas.
Qual mijar, qual carapuça!...

Era João com os seus passos leves que desejava olhar, tocar e até abraçar o pai, que tão apressadamente e em segredo, abandonava – pensava-se que para sempre -, a casa familiar.
Mas nada feito.
Lá longe, pelo velho caminho empedrado acima, já se não ouviam os passos., nem as vozes dos companheiros que o acompanhavam...

A cena repetiu-se.
Muitas vezes.
E pouco a pouco, ano após ano, os quatro filhos mais velhos do casal – que nos tempos ainda há pouco idos da segunda guerra tanta fome tinham passado -, em breve seguiriam o mesmo caminho.
Os três mais velhos – a quem nunca foi dado tempo para brincar nem para tirarem o diploma da quarta classe, depois de tanto labutarem em casa dos tios ou dos avós, ou de quem quer que deles precisassem -, emigraram também eles para o Brasil, chamados pelo pai. O mais novo dos quatro – Zeca, era esse o seu nome -, com a ajuda de um amigo e vizinho, foi para mais perto, para a cidade do Porto, onde trabalhava como marçano.

*

Casada, e mãe de sete filhos, Maria estava agora quase só.
Sozinha arcava com toda a responsabilidade pelo cultivo das terras, pela educação e pela alimentação dos três filhos mais novos que com ela ainda viviam. Mas tresmalhá-los – como acontecera com os mais velhos -, era sacrifico que não compensava, nem ela estava disposta a fazer.
A família continuava a viver mal...
E o resto das terras - que a custo ainda continuava a trabalhar -, sem braços, sem estrume, e sem gado para as lavrar, começavam a ressentir-se. Para as manter e delas tirar algum proveito, Maria via-se aflita.
Era demasiado...
E a sua entrega aos donos, estava cada vez mais próximo.
O pobre caldo das couves; as batatas cozidas – sem azeite para mais economizar e se poder comer à mão -; o broa de milho, cortada às fatias e frita no azeite usado, e já gasto – para lhe dar melhor paladar e enganar mais facilmente o estômago -; e o chicharro cortado em três postas – para dar maior rendimento -, continuavam a predominar nas prateiras e nas tigelas das refeições diárias da família.
Acabaram-se as fornadas do pão de milho e de centeio; o arroz e o macarrão de anho cozinhados no forno de lenha; as matanças dos porcos no outono e no inverno; as festas de aniversário...
Até a idas ao rio perderam o encanto.
Perante esta situação, completados os estudos primários, João teria de levar outro rumo. Para a lavoura não dava. Era desastrado, sem jeito nem talento. A sachola, o engaço, a forquilha, a foucinha e as outras alfaias e utensílios do campo eram-lhe muito pouco simpáticos, e muito menos convidativos.
João sonhava ser carpinteiro...
Construtor de casas e de móveis...
Cortador de pinheiros...
Serrador de madeiras...
Queria ter arte!
O pior – para ele -, é que tal arte custava muito dinheiro.
Nas redondezas do rio Paiva e da serra de Montemuro não existiam escolas que ensinassem as artes e os ofícios. Nem haviam oficinas, e muito menos fábricas. E os mestres pedreiros, carpinteiros e outros, cobravam diariamente cinco escudos, por cada aprendiz que ensinassem.
Maria não tinha posses para alimentar os sonhos de João...
Assim sendo, mesmo que a contragosto - pelo menos pelos anos mais próximos -, as artes e os seus sonhos teriam que ficar adiados.
A emigração dos irmãos mais velhos e do pai para as incertezas do mundo em nada tinham facilitado, e muito menos ajudado, pois as dividas aumentaram e os trabalhos também. E ao contrário do esperado e do que muita gente apregoava, cinco anos passados, ainda não tinham enviado qualquer tostão.
Aflita, só, e adoentada, Maria via os filhos a crescer e a fugirem-lhe aos poucos, e não aguentava tanta dor e sofrimento. Conhecia muito boa gente que tinha emigrado para o Brasil, mas também sabia que de lá, poucos tinham voltado.
Foi pois, com as marcas deste sofrimento – de mãe, de angustia e de aflição -, que Maria se tinha oposto a que Zeca tivesse seguido os passos do pai e dos irmãos. Ficando pelo Porto, sempre era mais próximo de si...
João teria de seguir o mesmo caminho!

*

Foi pois com os olhos arrasados em lágrimas de sangue, e o coração batendo, muito apertado, doendo, bem lá no fundo, fitando meigamente ao longe, no alto dos montes verdes o sol doirado, que suavemente beijava as folhas dos altos eucaliptos e a caruma dos grossos pinheiros, que Maria ditou a carta...

“... meu bom amigo, ele – João -, aqui não terá qualquer futuro. E além disso, travesso como é, não sei que lhe fazer. Por favor, ajude-me...”


publicado por Pedro às 16:26
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