Palavras escritas; erotismo e sensualidade, imagens da vida; sonhos e realizações. Um mundo em movimento...
Terça-feira, 11 de Outubro de 2005
Parte I - Capítulo IV - Menino e moço
Montemuro.jpg

Obrigado a saciar a fome nos imponentes e magníficos seios da vizinha Conceição sempre que a mãe tinha que ir para os trabalhos do campo ou sempre que, pela fraqueza, lhe faltava o leite, João – como todos os outros miúdos da sua idade e da mesma condição social -, cresceu aos trambolhões da própria vida, moldado a ferros pelas brincadeiras de jovem criança, assim como pelos trabalhos dos campos e dos montes, alguns quilómetros distante, da estrada mais próxima.
De tenra idade integra-se e participa activamente na labuta familiar.
João faz asneiras e travessuras – cultural e santamente menos aceites -, e desempenha um papel, que na maior parte das vezes, por definição tradicional e imposição da própria vida, estaria destinado aos rapazes mais crescidos.
Apascenta as ovelhas, as cabras e os porcos. Furtiva e apressadamente, pirando-se do dono, carrega às costas grossos molhos de lenha seca - que rouba nos montes alheios -, e racha as tocas de pinheiro para acender e alimentar o fogo na lareira e no forno de cozer o pão. Para que mais tarde – e depois de bem secas -, mãos mais lestas e calejadas lhes retirassem o pinhão, rouba pinhas nos altos pinheiros bravos, que depois vende ao Antero do Cantinho por quinze tostões cada cento.
Desajeitado e atabalhoadamente, confecciona as refeições para ele e para as irmãs mais novas, e ainda prepara o chá de cidreira e de tília para a mãe sempre adoentada. Na lareira, acomoda as panelas de ferro preto com três pés, onde o caldo de couves, as papas de farinha de milho, e as batatas são cozidas, e o frio da serra combatido. Protector, acompanha, protege, cuida e dá banho às irmãs mais novas, pregando-lhes, de quando em vez, uns fortes e furtivos tabefes ou beliscões no cu – como tantas vezes aconteceu com a mais nova -, de modo que elas chorassem e fugissem para o colo protector da mãe, deixando-o a ele, livre para as brincadeiras e atropelias.
João brinca.
Corre...
Salta...
Pula...
E faz asneiras.

Simultaneamente dócil e agressivo...
Mas também esperto, orgulhoso, e radicalmente teimoso.
Também malandro.
Expressivamente vivo, carinhoso e alegre, João personificava – recordam os que, no tempo, melhor o conheceram -, a própria rebeldia, que caracterizava todos os jovens das aldeias rurais do interior. Rebeldia e ousadia, duas qualidades que o acompanhariam - passo a passo -, pelos anos inseguros e vindouros da própria vida. Pelo correr lento dos tempos, e como todos os garotos da aldeia, João passa a maior parte do tempo a fazer asneiras...

*

Numa primeira fase são os ninhos dos pardais, dos melros, das andorinhas, das pêgas e dos gaios, a sua imaculada perdição. Mas também as laranjas, as cerejas, os figos, as uvas, as castanhas e as nozes – que abundando por todos os lados -, lhe espicaçam o apetite e fazem mexer o corpo.
Já mais espigadote – juntando-se a outros rapazes da mesma igualha -, sorrateiramente rouba coelhos, galos, galinhas, perus e patos – incluindo à sua própria mãe -, e em grupo, todos se regalam nas petiscadas que se prolongam pela noite dentro. Sempre que pode – e a mãe está menos atenta -, pisga-se furtivamente dos trabalhos do campo e da casa, e vai para as represas e poças, ou para o rio Paiva, tomar banho. Perde-se nas horas do tempo a jogar à bola – feita de meia e trapos -, ao nicho-fora, ao pião, ao espeto, ou então ao botão, que arranca das calças e das cuecas de cu rachado, que sua prima Rosa – costureira habilidosa -, confecciona para todos os rapazes da aldeia.
Irrequieto e travesso, João não se deixava dominar...
Quando um belo dia apanha o irmão mais velho – o Zeca -, com as calças baixadas e encavalitado no rabo do Altino – não por ser movido por qualquer moral que o envergonhasse, mas antes por pura maldade e criancice -, vai por trás deles e zás... dá-lhes tal safanão, que o Altino se borrou todo pelas pernas abaixo, e o irmão se rendeu, encolhendo os testículos para toda a vida.
Claro que a cena não era novidade...
Qual era o garoto, sobretudo naqueles meios rurais – impregnado de saúde e pautasse pela genica e pela vivência - , que não tinha passado pela mesma experiência? Ou então, que não tivesse participado – autênticos festivais -, em sessões de masturbação colectiva – em grupos de cinco a seis à roda -, tentando ver quem atirava mais longe, aquilo a que infantilmente chamavam de leite?
Certa ocasião, João apareceu em casa com a cabeça rachada e a escorrer sangue, por ter sido apanhado no meio do centeio, na encosta, em cima da Miquitas, filha mais nova de um negociante de gado lá da terra.
Era traquinas de mais.
Encavalitava-se nas vacas, nas ovelhas, nas galinhas, nas moreias de cana e de colmo... Trepava pelos muros e pelas paredes.
Nunca estava quieto.
Era cheio de bichos carpinteiros...

Numa tarde de maior azar, aproveitando o facto de estar sozinho em casa, João quis imitar o que por vezes fazia com as moças, mas desta vez com uma vaca turina. Saltou-lhe para cima do costado, e – porque lhe não chegava com outra coisa mais significativa -, enterra-lhe o punho pela vagina dentro. Mas o raio da vaca - ou porque não gostasse do parceiro abusador, ou do jeito que este tinha para estas coisas de acariciar -, com dois valentes e repentinos pinotes atira-o contra as pedras negras das paredes da corte, ao mesmo tempo que aflita, o raio da vaca berrava, espumava, e soprava por tudo quanto era buraco...
As moças - já tipo casadoiras, mais feitas, quase adultas, algumas até já comprometidas com namoros e casamentos -, de corpo esbelto e rijo, muito coradas pelo sol dos campos, faiscando calores e ardores pela comichão que lhes lavrava entre pernas, e até nas outras partes ainda mais intimas do corpo, conheciam bem João. Algumas fugiam dele, como dizem que o diabo foge da cruz...
Porém nem todas.
Seguramente mais fogosas e atrevidas que as demais – movidas, talvez, pela pouca assistência que recebiam dos namorados -, algumas atiravam-se a ele, e serviam-se maliciosamente do seu jovem corpo, da sua traquinice e vivacidade - como faziam a Judite de dezanove anos e a Beatriz de dezassete -, que o levavam para o quarto delas, ou para os palheiros das ervas e das canas – e umas vez juntas e outras em separado -, brincavam com a coizinha, masturbavam-no, tentavam mesmo a penetração, e com ele já feito homem, autêntico cavaleiro adulto, ao mesmo tempo que davam gritinhos e gargalhadas, se rebolavam, e cavalgavam até às tantas...
A sua malandrice era tanta e tão-pouca, que ia ao ponto, de – com os olhos esbugalhados, pintalgados de sangue, e freneticamente agarrado ao castigado e diminuto pénis -, espreitar pelos buracos nas paredes de pedra solta, e pelas frinchas nas portas de madeira carcomida - nas lojas e nas cortes do gado -, quando aos sábados de tarde, ou aos domingos de manhã, com o regador dependurado no tecto a servir de chuveiro, as raparigas mais moças tomavam o banho semanal, enquanto que ao mesmo tempo se acariciavam e masturbavam – também elas -, com a ajuda do próprio sabão azul, macio e escorregadio com que se lavavam.
Depois não se calava.
Dava com a língua nos dentes.
Levavam porrada, claro, dos mais velhos...

*

João não tinha emenda!
E Maria, sua mãe, via-se negra e aflita para o aturar...

Mas tinha o seu lado positivo.
Tinha bom coração. Era bondoso. Meigo e prestável. Era bom aluno. E fazia os recados à mãe e aos vizinhos. Ceifava a erva, apanhava o pendão do milho e cortava o mato para o gado. Apanhava lenha para o lume. Cuidava das irmãs mais novas, e às vezes, até assistia à missa dos domingos...

Sem se aplicar muito aos livros, sempre passara nos exames.
E com dez anos apenas, já tinha o diploma da quarta classe...
Nada comparado com o Manel Preto, que já tinha catorze e ainda andava na segunda classe! Ou então com o Tó Sardão, que com dezoito anos, tinha ido com o pai, comprar o diploma, lá para as bandas de Viseu...

*

Naquele tempo, e naquelas terras do interior – aprender a ler e a fazer as contas -, frequentar a escola primária, era um autêntico calvário.
De pé descalço, calcorreando pelos pedregulhos e pela neve no inverno, aguentando abnegadamente com o sol abrasador no verão, palmilhando por caminhos de cabras e cabritos, só a muito custo, se venciam os quatro quilómetros que separavam a escola primária da aldeia. Na época dos exames - entre as aulas da manhã e da tarde -, os pais corriam ao encontro dos filhos, levando-lhes o almoço numa seira, e que era - autêntico pique nique -, alegremente devorado nos caminhos empedrados.
Nos invernos mais rigorosos quase se morria de frio.
O gelo derretido, pingando gota a gota, formava lindas figuras de humanos e de animais, escorrendo pelas ervas verdes que cresciam nas bordas dos muros, e os charcos de água nos caminhos, ficavam vidrados e espelhados. Nos anos mais rigorosos, a neve e o gelo, faziam estalar e rachar as próprias árvores e os telhados, e só à força de muito trabalho – com pás e picaretas -, se conseguia desimpedir e reabrir os caminhos da aldeia.
Apesar desta dura condição, só muito raramente se via fumegar o fogão a lenha que artisticamente ornamentava o canto, nas salas de aulas. É que a lenha – mesmo que, porventura, pudesse ser roubada -, era muito pouca para as casas pobres de cada um, e os responsáveis escolares, bem instalados e aquecidos nas casas mais fartas das redondezas, pouco ou nada se ralavam nem importavam com quem aprendia as primeiras letras. Quando a chuva caía mais grossa e a fome mais apertava, e a troco de muito pedir e de dez tostões, lá se conseguia uma sopa quente de couve e feijão com massa, que apressadamente, se cozinhava na arrecadação da própria escola.
E para cúmulo dos azares e dos pecados dos alunos, alguns professores batiam barbaramente e castigavam quem aprendia as letras e as contas pela primeira vez. Mas como pensavam e diziam alguns pais, assim é que deveria ser...
Assim é que os professores eram bons mestres...
Tão bons mestre, que para não se chatearem ou muito ralarem, obrigavam os alunos mais adiantados a castigarem os mais atrasados - quando estes cometiam erros nos trabalhos escolares ou tinham comportamentos menos aprumados -, aplicando-lhes os castigos com grossas réguas de madeira perfurada nas pequenas mãos, ou com compridas canas da índia secas pelas orelhas abaixo.


publicado por Pedro às 18:04
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