Palavras escritas; erotismo e sensualidade, imagens da vida; sonhos e realizações. Um mundo em movimento...
Quinta-feira, 19 de Maio de 2005
Parte I - Capítulo III - O Berço da terra

RioDouro4.jpg Terra de imensos e infindáveis montes amenos, de produtivos prados verdes, e de vales longos, suaves e profundos. Esplendoroso anfiteatro, plantado no longínquo horizonte da serra desnudada de Montemuro, verdadeiro rincão da beira-rio, com abundantes águas puras e cristalinas vertentes, monte nu e árido, após monte mais denso e povoado, em natural, e desenfreada busca, dos vales mais doces e profundos.


Histórica e típica aldeia beirã, alcandorada num suave e esplêndido cabeço, na margem direita do rio Paiva, com o seu rústico casarêdo aglomerado ao longo dos estreitos caminhos empedrados, e das vielas e dos quelhos em terra batida, dominando as serras longínquas e os campos mais próximos, que grata e abnegadamente, produzem a madeira, a roupa, a lenha e o mato; o pão, a carne, o vinho, as batatas, o azeite e as muitas e variadas frutas, encravada entre sucessivas montanhas amenas, de face aberta, e voltada para Sul...


Terra bonita.


Soalheira.


Alegre...


Mas também, terra pobre e abandonada, com os deuses mais beneméritos quase sempre ausentes, onde os seus habitantes travam uma dura e prolongada luta pela vida laboriosa - mas insípida e pacata -, com as tradicionais e animadas festas, romarias e feiras – únicos divertimentos e atracções ainda hoje presentes -, a escaparem, atrevidamente, à dura contagem dos tempos.


A vida destas gentes, e destas terras de Sertório e de Viriato – por onde em tempos também passaram e viveram os pré-celtas, os celtas e o lusitanos, bem como mais tarde, o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques e o seu fiel e devoto aio, Egas Moniz; o fidalgo e aventureiro alentejano, Geraldo Geraldes, O Sem Pavor; o visconde e general Serpa Pinto e o conde de Paiva, entre outras ilustres figuras da nossa lusa História -, é indissociável das ricas tradições e culturas ancestrais, que através dos tempos se reforçaram, se desenvolveram, e que ainda hoje, teimosamente, aqui perduram.


*


Os homens e as mulheres calcorreiam pelos caminhos encascalhados, ainda descalços, ou rusticamente protegidos com socos de madeira cardados, e usam as peças de roupa que cada qual consegue confeccionar, ou quinzenalmente comprar, na feira franca local. Os homens andam com a sachola, com o engaço, ou com a forquilha aos ombros, e as mulheres mais idosas – que por debaixo dos saiotes de linho ou de algodão, nada mais usam -, ainda mijam de pé. Pais e filhos comem todos juntos, à roda de uma grande prateira de barro vermelho pintado, muitas das vezes com as mãos, a substituírem os garfos de ferro e as colheres de alumínio, que lhes fazem falta nas gavetas.


Os carros de madeira, os arados e as grades com que trabalham as terras, são conduzidos pela mão firme e calejada do lavrador, e puxados pelos bois cabanos, aparelhados aos pares.


O ferreiro da aldeia, equipado com a bigorna, e a sua velha forja de fole artesanal, tempera o aço, e molda o ferro, e com a força dos seus grossos braços, dá forma e vida às ferramentas, às enxadas, aos engaços, às forquilhas, aos machados, às picaretas e às foices de rachar lenha e de podar.


Os lenhadores e carpinteiros, cortam os pinheiros, os eucaliptos, os carvalhos e as outras árvores de maior porte, serram e aparelham meticulosamente a madeira, e artisticamente constroiem os telhados, as portas e os móveis, enquanto que os pedreiros, arrancam das entranhas mais profundas da serra, a pedra negra, cortam-na aos pedaços quadrados ou rectangulares, e caldeiam a argamassa com saibro e cal, com que lentamente, vão dando forma às casas mais faustosas.


A água, pura e fresca que bebem e utilizam, nasce abundantemente e a céu aberto, das minas e dos poços esburacados um pouco por todo lado, e o guloso vinho verde – branco ou tinto -, brota generoso das parreiras, dos choupos, e das ramadas, atrevidamente esticadas pelos campos e pelas leiras. O pão de broa é cozido em fornos de lenha, construídos nas amplas cozinhas, amassado com a farinha de milho, de centeio e até de alguma cevada, e a carne – desde que não seja do porco caseiro, do anho ou do cabrito montanhês -, compra-se nas feiras, nos dias de maior festa...


*


Anualmente, poucos dias antes do Natal, vindo doutras aldeias mais distantes, mas tão nobres e pobres, como estas Terras de Santa Maria, chega o circo andante, que com alguns barrotes em madeira e uns pedaços de lona velha, com varas e tubos em ferro, com arames e cordas de sisal à mistura, todo ele se estica ao alto, e abanca, provocatoriamente, no largo da feira do gado, das alfaias, dos utensílios, das roupas, dos doces...


Porque não é de apurados, nem de requintados luxos, nem tão-pouco de grande rigor e aprumo artístico – mas antes pobre, raquítico e amador -, o circo andarilho apresenta-se quase todos os anos com o mesmo palmarés de artistas, e a mesma animação; com o mesmo chinfrim de cornetas e concertinas, e o apresentador, todo ele muito bem emproado, berrante e pindéricamente engravatado, com o cabelo empastado e reluzente de brilhantina amarela com cheiro, apresenta os artistas mais bem cotados.


Num ano, são os sempre velhos e sempre alegres palhaços; no outro a seguir, é o tocador do bombo, da pandeireta, dos ferrinhos e da gaita de beiços; e noutro ainda, são duas pêgas amansadas, presas numa gaiola com baloiço, e uma leoa malhada - magra e velha -, dentro de uma jaula feita em verga de salgueiro, que mais parece uma cadela desmamada. Os músicos e os artistas – da corda bamba, do trapézio e das cantorias -, também não são esquecidos.


Com frenesim espalhafatoso, apregoa-se a arte, a beleza, e o falso conforto que querem vender. Mas no meio de todo este aparato artístico, sem tristeza nem aparente mágoa, todos – artistas e público -, se sentem bem. O pior é quando a chuva é mais forte e teimosa que a vontade humana.


Desordenadamente todo o zé povinho foge.


É que a velha tenda armada em circo, graças aos muitos e enormes rasgões e remendos, à pressa atamancados, mais parece um velho manto de noiva, ou uma rede de pescador...


*


Cumprindo o calendário imposto pelas leis dos governantes, e dos padres e bispos mais católicos, bem como pela tradição dos tempos mais remotos, pelo menos uma vez em cada ano, escolhem-se os mordomos das festas e das romarias, entre os homens mais ilustres e notáveis da aldeia. Depois de receberem os cargos dos que cessam funções, e já investidos na digníssima e invejável condição de mandatários dos interesses da santa igreja, dando largas à crença, à fé, e á devoção marcadamente religiosa – mas nem sempre defendida e muito menos praticada -, os novos mordomos organizam a primeira comunhão solene das crianças; as festas do Santo António; da Santa Isabel; da Santa Bárbara e do São Miguel, as quais, com a procissão percorrendo alguns caminhos da aldeia, com o arraial no adro, à volta do coreto, e o sermão no púlpito, da capela ou da igreja, são brilhantemente animadas pelas bandas de música de Espadanedo, de Nespereira, de Tarouquela, de Fornelos ou de Fiães, para só referir, neste pequeno rol elucidativo, as bandas mais badaladas. E para alegria e animação da criançada mais miúda, nunca nestas festas populares faltam os foguetes e os morteiros, a quermesse, o pão-de-ló docinho, as cavacas, as roscas e os rosquilhos.


*


Neste pedaço de terra, bem portuguesa, o ano começa bem.


Com as Janeiras.


E também com os Reis...


Noite fora, até ao raiar do dia e o cantar do galo, os rapazes mais espigadotes e as raparigas mais roliças, em rusga, numerosos, alegram as casas espalhadas pela aldeia, cantando e dançando, reclamando alegremente a pinga da pipa, o pão da eira e o salpicão do fumeiro.


Boas noites, meus senhores,


Boas noites vos vimos dar.


Vimos dar as boas festas,


E a vossa casa alegrar...


Gritam todos, muitas das vezes, em coro desafinado. Depois, de entre todos eles, sai para a frente o mais moço e rafeiro, que esganiçado e atrevidamente, se atira à filha mais nova do chefe da casa.


Viva a menina Lurdes,


Que seu coração me é tão caro.


Venha dar as boas noites,


Ao seu mais querido namorado...


Já outra vez com a goela seca, voltam todos a cantarolar.


Temos sede, temos fome,


Venham ver como eles estão.


Mas tragam queijo, pão e vinho,


Sem esquecer o salpicão...


Com os desejos e caprichos satisfeitos, e com o sorriso aquecendo a própria barriga, lá vão eles, outra vez todos, de porta em porta, à espera que uma outra se lhes abra...


*


Com a Páscoa, que chega abraçada alegremente às flores e ao sol da Primavera, e logo que termina o forçado jejum da quaresma, os foguetes voltam a estrondear no azul sem fim dos céus, anunciando ao mundo dos vivos, a apregoada santa ressurreição dos mortos.


As mulheres e as moças, vestidas com as suas melhores saias e blusas de chita e cambraia, e os homens e os moços, de fato domingueiro aprumado com brio, comungam da religião, e todos juntos tomam o Senhor, bem cedo, na missa da manhã. Em seguida visitam os padrinhos e as madrinhas, esperando deles receber a benção e o folar, que normalmente consiste numa rosca de pão-de-trigo, para os mais pobres, ou numa broa de pão-de-ló, para os mais folgados.


Pela tarde sai o Compasso, que anunciado por foguetes e por morteiros, sorrateira e alegremente, enfia-se pelo quinteiro das casas, atapetado previamente com folhas de lírios e ramos de oliveira, de alecrim e de rosmaninho.


Toda a família espera por Ele, na sala.


Ajoelhados.


À volta da mesa, adornada.


Com respeito, os mais velhos.


Com espanto, os mais novos.


E todos, ordeiramente e à vez, depositam nos pés do Cristo moldado a prata, o beijo sacramentado.


Depois, voltam a sair...


Correm lugares...


Soutos...


Campos e lameiros...


É sagrada função do padre – que na maior parte das vezes não passa de um jovem seminarista mais adiantado nos estudos -, vestido a rigor com a batina preta e de sobrepeliz branco, benzer o povo cristão mais crente, o seu gado e os seus haveres, bem como encabeçar o quinteto que dá forma ao Compasso. E os seus ajudantes – também eles abonecados com a santa opa vermelha pelos ombros -, acompanham-no disciplinadamente.


Religiosamente todos cumprem as funções que santamente lhes foram confiadas. Um deles, normalmente o mais jovem, carrega com a pesada caldeirinha cheia de água-benta; um outro, já mais fortalecido e entrado na idade, badala activamente com a campainha de bronze, anunciando a chegada do padre e da cruz; o mais religioso entre eles, carrega às costas o cristo crucificado, que embelezado com as rosas e o alecrim bravio dos campos e dos montes, recolhe os beijos, e a devoção dos mais crentes; e por último, o mais fiel guardião dos interesses paroquiais, com uma cesta de verga debaixo do braço ou uma saca de pano cru às costas, recolhe as dádivas, que nas casas mais fartas, sempre acaba por nela cair...


Quase ao cair da noite, festivamente recebidos pelo estrondear dos foguetes e dos morteiros, cansados, e meio toldados pelo sol primaveril e pelo vinho, que pelas gargantas, vão, aqui e acolá, entornando, o Compasso recolhe à igreja matriz.


*


Na última semana do ano, quase logo a seguir aos Santos e à matança dos porcos, pelo Santo André, festeja-se o Natal. E na véspera, na longa noite de consoada, toda a família se reúne à volta da lareira. Sentam-se, uns ao colo, e outros lado a lado, no comprido preguiceiro de madeira. E pacientemente, disciplinadamente, todos ficam à espera que as vivas e fortes brasas da lareira cozam o bacalhau – que a custo se importara da Noruega -, e as batatas e as tronchudas, arrancadas no quintal. Tudo acomodado, com zelo e muito carinho, como manda o saber e a tradição, nas panelas de ferro preto.


Enquanto que na lareira, as chamas do lume, acariciam docemente o cu das panelas, os presentes mais idosos, contam repetidas histórias relacionadas com os lobos e as raposas que proliferam nas montanhas e nas serras vizinhas; inventam anedotas picantes e atrevidas, bem como lendas - passadas ou sonhadas -, onde entram bruxedos, padres, adivinhos, curandeiros...


E todos riem.


Todos participam - avós, pais, filhos, tios e sobrinhos.


Enquanto isso, sorrateiramente, atrevidamente, entra de mansinho, pelas narinas acima, o doce cheiro dos formigos, das rabanadas e da aletria, dos cominhos, do alho, e do azeite aquecido, da canela...


*


Três dias antes da quaresma, preparando-se para calar o período de maior folguedo e da maior participação popular, recebe-se de braços abertos, e o com o coração aos saltos, o entrudo, que é por excelência, a mais alegre e concorrida manifestação local, quer por homens e mulheres, quer por jovens e idosos.


Todos brincam.


E todos jogam...


Carnaval bem português, sem grande cópia, nem imitação.


Gente nova e gente idosa, todos se mascaram de figura trapalhona.


Por um dia, os homens viram mulheres e as mulheres viram homens. Trocam-se as calças pelas saias; as camisas pelas blusas; os tamancos pelos chinelos, e pinta-se a cara de branco, com a farinha de milho, ou de negro, com a fuligem das lareiras. Organizam-se grandes bailes, onde reina um burro - o burro do entrudo -, imitado por três rapazes cobertos de mantas velhas e sacos de serapilheira.


Ao finalizar a festa, por volta das cinco ou seis horas da tarde, deita-se fogo a um par de bonecos gigantes feitos de palha e farrapos velhos – a quem pomposa e carinhosamente tratam por compadre e comadre -, simbolizando ele, o rapaz escolhido em segredo, pelas raparigas, e simbolizando ela, a rapariga escolhida, também em segredo, pelos rapazes da aldeia.


Esta paródia - quase macabra e quase sagrada -, é antecedida pela leitura dos responsos e testamentos, uma espécie de oração em versículos que se cantam nos ofícios religiosos, onde tanto o compadre como a comadre se degladiam verbalmente, legando aos mortais que ficam, os parcos haveres materiais, que para o escuro do além desconhecido, não podem levar...


A ladainha nunca é igual, variando de ano para ano, consoante a inspiração dos rapazes e das raparigas que a idealizam e escrevem, dividindo-se quase sempre em duas partes distintas. Uma primeira, para se acusarem um ao outro, e a segunda, para se despedirem dos amigos mais fieis e mais próximos, legando-lhes os haveres mais íntimos.


Num carnaval dos mais animados, raivosamente, o compadre, que nesse ano fora encarnado pelo Tonho da Pedrosa, atira-se assim à comadre:


Ó comadre vais morrer,


comigo, aqui abraçado...


P´ra pagares o que fizeste,


e me teres... atraiçoado!


Mas a comadre, que era muito ladina, e tinha a língua solta, não se fica calada e responde-lhe:


Olha o compadre rafeiro,


que pouco tem p´ra se ver...


Mais parece um carneiro,


sem tomates... p´ra temer!


No seu testamento, cumprindo a praxe, e o uso de muitos anos passados, o compadre Tonho, não se esqueceu do Júlio, seu amigo de infância, que além de carpinteiro e serrador de madeiras, se aprumava, galhardamente, e de vez em quando, como ajudante do padre Zé, na missa dominical.


Ao Júlio vou deixar as cuecas,


porque as não posso levar...


Tem cuidado amigo, não as percas,


quando ao rio, com a Rosa fores nadar!


E a comadre, que deixou os seus bens mais pessoais à Micas, a conversada do Manel Preto:


À minha amiga Micas,


meu soutien vou deixar...


P´ra que seu Manel não veja,


as suas grandes mamas... murchar!


*


A vida desta gente do campo, no interior das beiras, embora enriquecida pela história e pela tradição, nos finais desta grande guerra, e no início dos anos cinquenta, mantinha-se péssima e tristemente condicionada, sendo fortemente marcada pela falta dos bens mais essenciais, mas também, pela falta dos meios de lazer, de informação e de cultura.


Entre a gente mais moça, eram muito poucos os que sabiam ler e escrever. E em toda a região, não se publicava qualquer jornal, sendo muito poucos os que, esporadicamente, levados do Porto, por lá apareciam. Só o senhor regedor – também ele lavrador, recentemente regressado do Brasil -, e ainda o velho padre Zé – reconhecido republicano, com grandes amigos instalados no governo civil de Viseu -, é que recebiam, uma vez por outra, o jornal da diocese de Lamego, e o mais que centenário Jornal de Notícias, do Porto.


Embora imbuídos do espirito da inter-ajuda comunitária – nas doenças; nas vindimas; nas ceifas do milho, do centeio, da apanha da batata; no amanho das terras de maior dimensão, e com excepção da utilização colectiva dos moinhos de água - onde a farinha do milho, do centeio e de alguma cevada é moída -, bem como dos canais e regos das águas de rega -, estas gentes não alimentavam qualquer tipo de outro embrião associativo. Devido ao atraso na cobertura nacional da rede eléctrica, também não havia qualquer iluminação pública, sendo as casas, na sua grande maioria, iluminadas com a candeia a petróleo. Também não tinham retretes, e muito menos casas de banho, satisfazendo-se as normais necessidades fisiológicas, de cócoras, na casinha do quintal, ou romanticamente cobertos, com o suave luar das estrelas, no rego do caminho público...


Contavam-se meia dúzia de aparelhos de rádio. E para a grande maioria dos habitantes, o cinema e o teatro, eram totalmente desconhecidos. Como oásis neste deserto cultural e informativo, existia um único aparelho de televisão, pertença do Antero do Cantinho, antigo mineiro nas minas do Pejão - que empanzinado pela silicose preta do carvão espalhada nos pulmões, e pelos escarros forçados de sangue, se tinha transformado em taberneiro de copos, e comerciante de açúcar, de pão, de sabão, de petróleo, de vinho, de pregos e de moletes, mas também das pinhas, das frutas e das hortaliças -, e que cobrava cinco tostões, por cada noite, e a cada um, por este seu moderno espectáculo televisivo...


*


Combatendo a preguiça, a sonolência, e tentando melhor matar o tempo, e colmatar a falta de outras realizações de maior e de mais útil convívio, alguns habitantes - sobretudo os mais jovens e activos -, de tempos a tempos, organizavam os concorridos e afamados bailes do tango e da valsa, do fox-trot e da quadrilha mandada ou marcada – que um dia os invasores napoleónicos decidiram trazer de França -, onde os mais jovens se divertiam, arranjavam conversada, namoravam, e cozinhavam casamentos. Por sua vez, os mais idosos e os menos afoitos, à porta da venda – também simultaneamente café, taberna e drogaria -, jogavam à patela ou ao burro, e outros ainda, à bisca, ao sobe-e-desce e à sueca...


E as mulheres mais moças, sempre que os trabalhos do campo e a lida da casa lhes deixava tempo mais livre, furtavam-se aos rapazes mais atrevidos, e organizavam, ao acabar das tardes, nos fundos dos lameiros e quintais verdes, as populares cantas, em homenagem e em agradecimento ao divino santíssimo e ao astro-rei, que àquela hora abandonava os vales profundos e espreitava por entre os rochedos e os pinheiros. Cantavam em cascata, ou à capela, em grupos de cinco ou sete, formando uma espécie de coro a duas vozes, com duas na base e uma outra por cima.


Era lindo...


E docemente agradável, ouvir o éco das suas vozes, das suas preces, das suas orações cantadas: “... Fruto do ventre sagradoooo...


*


Mais ou menos consentidamente, para contento, e até para prazer dos homens e rapazes, mas também para desgosto e vergonha de algumas mulheres e moças, as Ortigas e as Pelotas, pavoneavam-se livremente pela aldeia e pelos lugares mais próximos. Tanto as primeiras como as segundas famílias, no tocante ao ramo feminino, eram mulheres de opulentos traseiros e volumosos seios, que apesar de mal e pobremente vestidas, e por vezes até badalhocas, tudo faziam para despertar e provocar o interesse macho, sexual, dos homens e rapazes mais espigadotes, que por elas, nos caminhos se cruzavam.


Alegres e descaradas, elas eram sobretudo pouco amigas de vergarem o corpo nos trabalhos do campo ou da casa, contrastando com a prontidão com que limpavam, o que aqui e acolá, menos acautelado, encontravam. Por isso, entregavam-se à vida, dita fácil, como alguém apregoava, fornicando bem e depressa com todos eles, a troco de um naco de toucinho, de uma saca de feijão ou de uma garrafa de vinho verde, nos campos, nos canastros e nos palheiros da Pedrosa, do Souto ou da Ribeira. Até à beira-rio, ou dentro da mina seca da Costa, as Ortigas e as Pelotas, das ervas secas, faziam cama...


*


Pelos caminhos da aldeia, também eram assíduas a dupla constituída pela Carneira e pela Canária – tia e sobrinha -, que a troco de cinco tostões de aguardente ou de um copo de vinho, se peidavam, alto e bom som, com assumido profissionalismo e prazer, pelas vendas e pelas festas da terra, fazendo soltar gargalhadas aos grandes e aos pequenos, aos novos e aos velhos, às mulheres e aos homens, imitando, tal e qual, o velho burro do Quim moleiro, que semana após semana, penosamente, desde as fundas bordas do rio, carregava a farinha para o pão, e o farelo para as galinhas e para os porcos.


*


Mas uma das festas mais rijas, era sem dúvida, a lavagem no verão, das roupas mais pesadas das camas, e dos corpos mais sujos. Como se fosse um dia de santo feriado, era seguramente um dos poucos dias do ano, em que toda a família – pais, filhos, netos, e muitas das vezes até os amigos -, conviviam tão juntos e tão alegremente.


Madrugada bem alta, com toda a gente de rabinho fora da cama, e com o gado acomodado para todo o dia, vazava-se o colmo dos colchões e a moinha dos travesseiros, e juntavam-se as mantas de tiras e os cobertores de lã, ainda quentes, por uma noite passada em sobressaltos. Com os molhos da roupa à cabeça ou às costas, cesta do farnel à cabeça ou debaixo do braço, pela encosta abaixo, cantando e rindo, assobiando e brincando, o grupo chegava à lagoa mansa ou ao penedo do carneiro, muito naturalmente plantados, em pleno coração do rio Paiva.


A água estava tépida, limpa e transparente.


E a sede, era então saciada...


No fundo, as trutas, as bogas, os barbos, os escalos, os cabeçudos e até as enguias e algumas lampreias perdidas, se passeavam entre as pedras negras cobertas de lodo...


Os rapazes acompanhavam os homens, e as raparigas acompanhavam as mulheres.


E a meio da manhã, todos tomavam banho.


Os garotos nus, os homens em cuecas, e as mulheres em camisa de pano cru, que outra coisa, por baixo, não usavam.


Para grandes e para pequenos, para os corpos e para a roupa, era a barrela geral, e total, para todo o ano...


As mulheres, depois de terem demolhado a roupa, davam-lhe uma forte ensaboadela, batiam-na contra as pedras, e colocavam-na a corar ao sol, nos godos da levada ou nos canaviais das margens.


E o farnel, que na noite anterior ser tinha preparado com muito zelo e carinho, servia de almoço, servido entre o verde canavial, à sombra dos cedros, freixos e amieiros, local predilecto, para que os pais, pretensamente escapulindo aos olhares matreiros dos filhos - que lá de longe espreitavam por entre as canas -, apaixonadamente, ruidosamente, bravamente, se acariciavam e se amavam...


Depois do prazer partilhado, e de uma pequena, mas repousante soneca, as mulheres voltavam à lida da roupa, enquanto que os homens e os garotos, se entretinham à pesca, utilizando – sempre que o guarda-rios não espreitava ou não rondava por perto -, trovisco verde moído, ou pedaços de carboneto, que metiam nas garrafas de pirolito com gargalo de bola, fazendo-as explodir, de seguida, dentro da água do rio...


Os peixes, vindos à tona, aturdidos ou mortos, eram mais tarde, com santa devoção estripados, lavados, salgados, e guardados numa arca de madeira com sal, até que mais tarde, num rigoroso dia de inverno, as batatas e o azeite, lhes viesse fazer companhia.


Com o sol doirado lá bem longe, malandramente a esfregar-se já nos cêrros dos montes e das serras vizinhas, prestes a despedir-se deste lado aberto do mundo; corpo leve e limpo; estômago aconchegado com os restos do farnel; roupa lavada e seca, a família voltava à aldeia, para cima do meio da encosta, com a esperança, de no ano seguinte voltar...



publicado por Pedro às 14:13
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