Palavras escritas; erotismo e sensualidade, imagens da vida; sonhos e realizações. Um mundo em movimento...
Quarta-feira, 18 de Maio de 2005
Parte I - Capítulo II - O Sonho e a Vida

Vida1.JPG Rodeada pelas solicitas vizinhas, com a calma experiente que o correr dos anos lhe transmitiram, a Margaridinha das Chousas espera, encostada à velha cama de ferro pintada com esmalte azul, com um copo de aguardente, e uma côdea de broa nas mãos.


Trata-se de uma mulher já entradota na idade, bastante alta, forte e robusta, com tanto pêlo grisalho na venta, que mais parece um cavador. Margaridinha, a quem os tempos não impuseram, nem as condições permitiriam, licenciatura nem bacharel, é a única parteira, aceite e oficializada, na terra. Destemida e habilidosa, Margaridinha aprofundou a sua santa arte, no jeito requintado e preciso da prática, que a própria vida, no contar seguido de muitos anos lhe foi transmitindo. Foi pois a vida que a formou, e a moldou. E é a vida que a move, e será sempre, a vida que a fará mover. Em pleno dia, ou em plena noite, quer faça chuva, faça vento ou faça sol, sempre e prontamente, Margaridinha acode às aflições mais apertadas das mulheres prenhas. E as suas calejadas e grandes mãos, já ajudaram a parir, quase todos os filhos da aldeia.


A seu pedido – que mais parece uma ordem -, uma das vizinhas que tinha irrompido pela pequena sala - de um momento para o outro e sem qualquer formalidade ou gentileza aparente, também ela promovida a sua ajudante -, apressa-se a trazer a larga escudela de madeira com água a ferver, e as duas toalhas de linho, que a própria Maria, em tempos idos do verão e do outono, tinha tecido.


O tempo corre devagar.


Demasiado devagar, para quem sofre.


Muito lentamente.


Quase que pára...


E só três horas após as Santíssimas Trindades, é que o corpo de Maria mais aquece.


E em algumas partes, quase que escalda...


O seu útero dilata.


Abre-se cada vez mais.


E repentinamente, estatela, pelas pernas abaixo, uma longa exurrada de água morna.


Aparecem então as primeiras dores.


As grandes e profundas dores, que dolorosa e gritantemente colocam à prova a tenacidade, e a paciência, já calejada de Maria. Mandada deitar pela entendida parteira, umas vezes com as pernas abertas e retesadas; outras vezes com os joelhos espetados ao alto, em direcção aos barrotes e às telhas escurecidas pela fuligem da lareira e do forno do pão; costas bem firmes, fincadas no fosso do colchão de colmo forrado a linho e estôpa; camisa de pano cru ensopada, e colada ao corpo macio, pelo suor que lhe brota em finos riscos molhados, Maria responde aos impulsos do corpo e da alma, com o retesar firme dos nervos, dos tendões e dos músculos, forçando, deste modo tão especial, as veias do seu vermelho sangue feminino, a um trabalho circulatório intensamente louco, quase doido, quase brusco, enquanto que muito calmamente, como se nada consigo fosse, Margaridinha das Chousas, acaba o bagaço e a broa, arregaça as mangas, e lava as calejadas mãos, de lavradeira, e de parteira...


*


Não é novata, Maria, nestas coisas de parir.


Deste modo tão natural, quatro filhos dela tinham nascido, mais um quinto, que involuntariamente, tinha ido parar ao estrume, na corte dos bois e das vacas, logo que se contaram as primeiras nove semanas de gravidez. Não que tivesse sido por bruxedo ou aborto provocado. Mas sim pelo fatal e triste agoiro que a tinha atingido, provocado pela falta do entrecosto assado, que um dia seus olhos viram comer, em casa dos donos das terras que trabalhavam...


Apesar da calejada força do hábito, e da sua profunda experiência, da largura e amplitude das ancas e dos quadris, bem como dos cuidados muito atenciosos e experientes da Margaridinha, Maria receia as dores. É que ainda retém na memória e no coração, os trabalhos e sofrimentos que lhe provocaram o nascimento do último filho.


É pois, com a recordação desse passado ainda recente, que tenta amenizar, iludir, e até esquecer as dores, que pelo interior do seu corpo, lenta mas fortemente a golpeiam.


Tenta descontrair-se.


Esquecer.


Fecha os olhos.


E sonha...


Sonha, imaginando-se confortavelmente deitada numa cama larga e fofa, sem o raio do duro colchão de colmo a marcar-lhe o rabo e as costas; imagina-se dona de uma agradável casa, arejada, espaçosa, e repleta da canteiros floridos à sua volta, como a que um dia avistara, quando se deslocara ao centro da Vila mais próxima.


E a sua mente, não se limita à realidade.


Ao palpável.


E entra, sorrateiramente, no imaginável.


Corre o mundo, que a própria Maria desconhece. Visita sítios e lugares, que nunca antes vira. Abraça e cumprimenta pessoas, que não conhece. Vive um mundo, que apesar de pura fantasia, de momento, se transforma numa gratificante ilusão...


Maria, sabe que os sonhos, que as fantasias, são para as crianças, que são fases passageiras e muitas das vezes irreais. Que é a rudez da vida, a realidade nua e crua, que comanda as leis da própria vida. Mas deixemo-la sonhar, e idealizar, uma realidade bem mais florida e doce, do que aquela que, no seu dia a dia, gritante e amargamente, a rodeia. Maria precisa, neste momento, da paz que a realidade sonhada lhe transmite, para melhor cumprir, uma vez mais, a função criadora de Mãe, iludir o tempo que custa a passar, e a acalentar as próprias dores mais profundas.


Mas a realidade, tão dura e tão pura, bem presente e bem palpável, apesar dos sonhos, não a abandona. E uma picadela mais funda, mesmo no ponto mais profundo da sua vagina, acaba-lhe com os sonhos, e obriga-a a abrir os olhos.


A verdade está ali. Mesmo à sua volta.


Á mão de semear...


E quando os sonhos já não têm cor, nem lugar, os seus olhos enchem-se de lágrimas, enquanto que um nó, se lhe aperta no peito. E o frágil e doce coração, quase que lhe salta do nicho. O pequeno quarto onde se deita, apesar de limpo e arrumado, está velho e despido. No seu lado direito, na parede mais larga recentemente caiada de branco, penduram-se as estampas religiosas dos dois padroeiros da terra - São Miguel e Santo António -, procurando receber deles as graças, e o apoio, nas horas de menor sorte. E no canto esquerdo, mesmo aos pés da cama de ferro pintado, um buraco no tabique, foi cuidadosamente disfarçado com um pedaço de manta axadrezada. No chão, mesmo por baixo da cama, estende-se um tapete de tiras, que a própria Maria tinha tecido. E ao lado, quase à mão de semear, o bacio de esmalte branco... Pela porta entreaberta, alcança-se com o olhar uma pequena sala, que tanto serve para – num canto e em cima de um colchão de palha -, deitar os dois filhos mais novos, como para receber a visita dos amigos e familiares, bem como ainda, para as refeições melhoradas, nos dias de maior santidade. E no quartinho ao lado, nas noites de acalmia natural, numa cama de madeira já carunchenta, deitam-se os outros dois filhos mais velhos. O novo fruto, que escorre do seu corpo, ainda não tem canto marcado. Para já, ficará na cesta de verga, que Zé barbeiro mandara fazer...


No seu íntimo, Maria, interroga-se agora – mas só e apenas agora -, se não teria sido preferível, escaldar o raio do cu com o vinho tinto quente, ou atafulhar a vagina, com toda a salsa verde que cultiva no quintal...


É pois tardiamente que pensa nas condições em que mais um filho lhe vem alargar a família.


Condições de pobreza.


De carência.


De ansiedade...


Miséria e ingrata vida, cheia de aflições, privações, e até de disparates, que leva, muitas das vezes, a que se façam filhos só para ajudar nos trabalhos do campo, mas a quem se não pode dar, mais tarde, o mais elementar conforto material.


Era a sina daquela gente.


Gente pobre.


Gente sem eira nem beira, sujeita às agruras da sociedade dita civilizada, do tempo, da sorte, e do trabalho. Para os outros, claro!...


*


Maria passou o domingo sem dores. De manhã bem cedo, ainda assistiu à santa missa das sete. Em seguida, e depois de ter dado dois dedos de conversa com as vizinhas, preparou e cozinhou um arroz de feijão branco, para acompanhar com pataniscas de bacalhau, e preparou uma panela de caldo, com couves frescas que apanhou no quintal.


Foi o almoço melhorado.


Do domingo.


Da festa...


Na parte de tarde, agarrada ao velho tear de madeira, ainda teve tempo para tecer um bom pedaço de lençol em linho. E só durante o caldo da ceia, é que sentiu umas leves picadas bem lá no fundo da barriga.


Pronto.


Aí estava o sinal...


Mandou então, um dos filhos, chamar a Margaridinha, que chegaria cerca de uma hora depois. Encheu uma grande panela de ferro com água, e colocou-a ao lume. Preparou a escudela de madeira e as toalhas de linho. E pacientemente, com aparente calma, aguardou.


Gradualmente, a situação vai alterando-se.


E com o avançar das horas, a barriga toma várias formas.


As dores aumentam.


Duram mais tempo, picam mais fundo...


Vão e vêm, numa sequência tão rápida, como autênticas e finas facadas, mais parecendo que a estão a desmanchar por dentro, a cortar as entranhas, como sempre vira fazer o compadre Xico Camelo, na matança dos porcos, pelas festas do Santo André.


E de repente, como se fosse um inesperado trovão, sem raio ou faísca de aviso, os gemidos transformam-se em aflitivos gritos, autênticos uivos, que encoando pela calada da noite, se enterram nos ouvidos dos outros filhos, que ali bem perto, passam a noite na casa de uns vizinhos.


O sinal da vida aproxima-se!


No corpo de Maria, os dois corações batem mais forte...


E as duas almas, que há nove meses nele se instalaram, gradualmente se separam.


E um novo Ser, humano, e mortal, se descola e escorrega.


Devagar...


Cautelosamente...


Decididamente, para a vida.


Às onze badaladas, desafinadamente cantadas pelo pêndulo do velho relógio da sala, três gritos enormes e sussurrantes, seguidos de vários e rápidos suspiros, e de uma respiração incerta e ofegante, amenamente, acabam com o doloroso e penoso tormento. E ao mundo, mostra-se por fim, entre os santos lábios de uma vagina larga, ensanguentada e amachucada, uma cabeça meio peluda e enrugada, que mais parece uma noz, seca, descascada.


Com uma sensação de agradável alívio, os lindos olhos d’água molhados e cansados, brilhantemente vidrados pela felicidade, um último e forte impulso de Maria, expulsa, das suas entranhas, por entre as coxas redondas e firmes, para os braços fortes e ensanguentados da Margaridinha das Chousas, mais um destino pleno de vida...


Mais uma boca para comer. 


Uns braços para trabalhar. 


E uma cabeça para pensar...


Era o João!



publicado por Pedro às 11:39
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