Palavras escritas; erotismo e sensualidade, imagens da vida; sonhos e realizações. Um mundo em movimento...
Domingo, 15 de Maio de 2005
Parte I - Capítulo I - O começo

O inverno aproximava-se aos poucos, lentamente, em autênticos pulinhos mansos e sorrateiros, mais parecendo que a medo, arrastando no seu colo natural, o rigoroso e intempestivo temporal, que ano após ano, estação após estação, assola a região serrana, destruindo culturas, socalcos, palheiros e casas, e mesmo até as próprias vidas, daqueles e daquelas, que de tenra ou de mais avançada idade, pelos anos passados ou ainda não vividos, não encontram forças nem energias suficientes para resistir e sobreviver.


E de repente, de um momento para o outro, sem dá cá aquela palha, nem nada que se lhe assemelhe, uma forte trovoada estala por entre o velho casarêdo, pelos campos e pelos montes, arrastando-lhe pela cama molhada do vale, que rapidamente conduz ao rio. Os relâmpagos flamejantes cegam os olhos de quem os tem abertos, e queimam a cana do milho, e a palha do centeio, enquanto que a saraivada, abundante, ruidosa e grossa, cai das nuvens sem fim nem medida...




*




O mês de Novembro corre rápido, e já vai a mais de meio.


E a noite, que nesta época do ano se apresenta normalmente escura, tristonha e agressiva, por obra ou divino milagre – não se sabe de que santo mestre -, acaba por nascer radiosa, amena e doce, permitindo que a brilhante e cintilante lua brilhasse - airosamente dependurada lá bem no alto sem fim, num geométrico turbilhão de nuvens negras escamadas -, como se fosse uma autêntica salva de prata.


Uma verdadeira maravilha da natureza campestre, digna de um marco histórico qualquer, como que a querer dar as boas vindas, a um anjo recém nascido. Até parece, inesperada e milagrosamente, que os habituais frios da serra e as tempestades infernais, se acomodaram momentaneamente num sacrossanto e secreto acordo, atrasando-se de propósito...




*




Recuperando as energias perdidas na árdua lida dos campos, embalados pelo largo e ameno manto das estrelas prateadas, com os corpos embalados e aquecidos, colados e enrolados nos grossos cobertores de lã, e no colchão de palha e estôpa, os habitantes desta pacata aldeia beirã, plantada nos contrafortes da desnudada serra de Montemuro, aninhada entre dois belos rios – o Douro e o Paiva -, dormem calmamente, repousadamente, enquanto que á mesma hora, nas íngremes calçadas e nos estreitos e desérticos caminhos da aldeia, parcamente iluminados pelo raiar prateado do luar e pelo piscar tremulo dos arincús, os sapos, as lesmas e as sardaniscas, se alimentam entre as ervas meio secas e meio verdes, e as giestas mais tenras.


O silêncio é quase total.


E se não fosse o uivar ao longe dos cães e das cadelas, o miar dos gatos e das gatas, o palrar das pêgas e o piar dos môchos, que lá no alto dos carvalhos e dos pinheiros ou no campanário da igreja matriz marcam o compasso e a presença, com uma melodia, simultaneamente mórbida e balsâmica, dir-se-ia que nos encontrávamos no ventre mais profundo da própria Terra.




*




Como sempre acontece, em horas de santo e desejado ofício, as velhas vizinhas, mulheres de lenço atado na cabeça e de negro avental preso à cinta descaída, movidas pela curiosidade e pela prática destes velhos hábitos em terras serranas – que também nelas, desde há muito, lentamente, se foram enraizando -, simultaneamente solicitas e coscuvilheiras, atabalhoada e atrevidamente irrompem pela velha casa de pedra e tabique, invadindo, deste modo tão a despropósito, a imaculada privacidade, de quem nela, àquela hora, penosa e aflitivamente sonha e sofre.


E sem qualquer licença nem prévio convite, agindo como se da casa também fossem, abancam à volta da mesa carunchenta que ornamenta o centro da sala, que umas tantas vezes serve para comer e dormir, outras para fazer amor e parir, e outras ainda, para acolher os amigos e os familiares, durante as festas anuais da consoada e da Páscoa.


A dona da casa – ti Maria, como é conhecida e familiarmente chamada -, é uma autêntica e sacrificada mulher do campo beirão, que completou, no passado mês de Janeiro, trinta e cinco anos de idade.


Alta, delgada e magra, fortemente tisnada pelo sol que apanha – não nas praias do litoral, mas nos campos do interior rural -, de olhos d’água encovados, ricamente raiados por um bonito azul celeste - ti Maria -, traduz no seu semblante, no seu olhar, a marca das privações e da fome que grassa pelo país de norte a sul, mas em particular pelas lusas terras das Beiras, neste ano da Graça de 1946. São os amargos restos de uma planetária e destruidora guerra, que se foi, felizmente, ainda há bem poucos anos atrás.


Por detrás do seu aspecto físico, gasto e rude – sinais de uma vida plenamente atarefada e preocupada -, ti Maria esconde, a par da sua doce e profunda beleza, aparentemente agreste, a grandiosidade de uma alma enriquecida, a candura do olhar meigo e quente, a doçura, e a sensibilidade de ser mãe, e de ser mulher...


De ser mãe e de ser mulher que tem nela, no seu corpo, na sua alma, no seu olhar, o traço gravado da própria vida.


É que a pobreza dos áridos campos e das leiras, à força dos braços cavadas e transformadas em socalcos – desde as bordas dos rios até aos altos cêrros dos montes -, não dão conforto nem beleza, nem brindam ou premeiam, quem com muito esforço os trabalha, e muito menos, os pobres e sacrificados lavradores da aldeia.


A extrema magreza de Maria ilude – porém e ainda -, a extraordinária força que irradia do seu interior, reflexo da impetuosidade da sua vontade de querer vencer, do desejo contido – mas nem sempre correspondido -, de uma vida melhor para si e para os seus, bem como do empenho, religiosamente dedicado às coisas da vida e do mundo, emparceirando, lado a lado, com os filhos e com o companheiro – também ele -, lavrador e barbeiro na terra.


Esforçada pelos duros trabalhos do campo, pela estafada lida da casa, e pela canseira de tratar e educar os filhos – sem horário nem descanso -, ti Maria dedica-se ainda, nas horas mais mortas dos domingos e das noites mais longas, à tradicional e típica arte de tecer mantas, tapetes, lençóis e toalhas, a partir das tiras de trapo velho e do linho que ela própria semeia, monda, curte, tasca e fía, à volta da lareira, nas compridas e frias noites de inverno, amenizadas e encurtadas com as brasas das tocas e da rama de pinheiro, que seus filhos roubam, nas horas que deveriam ser, de estudo e de brincadeira...


Habituada a cortar a erva do lameiro e o pendão do milho para o gado, acarretando-o depois, quer à cabeça quer às costas, desde os fundos lameiros à beira-rio até à cortes do gado, no centro da aldeia; de roçar o mato de tojo, de giesta e de carqueja, nos montes da portela da Coruja e do planalto de Moimenta; de podar e tratar das videiras, encavalitadas pelos choupos e ramadas, um pouco por todo o lado; de lavrar, cavar e semear os campos; sachar as batatas e regar os tomates, as cebolas e o milho – nas terras dos outros, que dela pouco ou nada tem -, ti Maria prepara-se, para parir, pela sexta vez.




*




Como no passado tantas vez acontecera, também desta vez, Maria não programou a gravidez, nem o nascimento de mais um filho.


Mas aconteceu.


Como já antes tinha acontecido.


São coisas da vida...


Porque são o fruto dos tempos que ainda não chegaram, Maria desconhece os poderes anti-conceptivos da pílula, dos cones, das espumas vaginais e até dos preservativos, para já não falar do mais moderno aparelho ginecológico. E apesar de algumas mulheres, na aldeia, como noutras terras mais vizinhas, tentarem os desmanchos, com rezas pseudo mágicas, e outras artes ancestrais, nomeadamente introduzindo pela vagina acima um ramo de salsa verde, ou escaldando os pés e a barriga das pernas com cinza quente da lareira, ou ainda esfregando a barriga, as nádegas e as costas com vinho tinto quente, Maria, católica de nascença e por vezes praticante – simultaneamente temendo-se ao seu Deus, e aos males que lhe provocariam no corpo -, nunca tais práticas defendeu, e muito menos praticou.


Quando a maré se aprontava, aproveitava-a, gratamente...


É que uns braços a mais, para quem tanto tinha que labutar – desde que não fosse aleijadinho nem tolinho -, sempre faziam bom jeito.


Mas depois...


E tristemente, só bem depois, é que eram elas!


 


*


Tudo começou, naquele mês de Março...


A primavera já batera à porta, e os campos verdejavam e desabrochavam abundantemente. As terras fermentavam com as chuvas e com o calor dos raios solares a penetrarem sorrateiramente nas suas entranhas mais profundas.


As flores multiplicavam-se.


E os gamões das vides, milagrosamente, davam vida, a novas vides...


Ombreando com o seu companheiro, Maria devastava uma borda de silvas e giestas, arrancando umas quantas ervas daninhas no lameiro da Pedrosa.


A tarde chegara bela e quente.


O calor apertava...


E o suor, começava a escorrer fininho, humedecendo os dois corpos.


Os raios do sol, em pleno pino celeste, provocavam a sonolência, amoleciam a energia dos corpos e convidavam ao descanso...


Quando lá longe, num relógio qualquer perdido nas sombras dos choupos, martelavam as três horas, num repente inesperado muito pouco usual nos seus hábitos, com os lindos olhos azuis a brilhar e a faiscar raios de oiro por todos os lados – com malícia desajeitada, mas certamente estudada -, Maria vira-se para o companheiro e amante e diz-lhe:


- Olha Zé... e se fossemos para o palheiro, descansar? Ambos estamos fatigados, e este calor dá cabo de nós...


Sorrateiramente olhando para a jovem mulher, enquanto que maliciosamente espraiava o farto bigode pelo sorriso, Zé barbeiro rapidamente se apercebe da intenção do convite, mais que interessado e significativo da mulher.


- Sabes muito bem, que temos de acabar ainda hoje com este trabalho... Mas vá lá, um bocadito, não nos deve atrapalhar...


Foram para o palheiro.


Zé barbeiro, também ele de trinta e cinco anos, cabelo com risca ao lado e de bigode farto e curto, alto, bem parecido e com vaidade assumida, matreiro e destruidor de corações nas jovens moças do seu tempo, nem sempre concordava com a mulher.


Era senhor do seu nariz.


Mas às vezes...


Treparam pelas escadas de pedra, estreitas e escurecidas pelo musgo seco, e entraram no lugar cimeiro do palheiro. Sentaram-se primeiro, deitaram-se lado a lado depois, entre o folhelho e a cana seca do milho, que mais tarde, misturada com a erva verde do lameiro, destalha os dentes e desenjoa o gosto ao gado. Puxaram o colmo, que aquece os corpos nos colchões da cama, e apressadamente, fogosamente, fizeram dele as tábuas do desejo sacramentado.


Por baixo deles, na possilga térrea, os bois chafurdavam no chiqueiro do próprio estrume.


E ainda hoje se não sabe, se foi por causa do calor, pela moleza nos corpos, pelo cheiro do gado, ou se, porque outra coisa ainda mais forte e bela assim o quis, os dois corpos levemente tocaram-se.


Roçaram-se...


Procuraram-se...


E neste real e puro teatro da própria divina natureza e da vida terrena, a ordem natural cumpriu-se.


Os desejos foram satisfeitos.


Os corpos repousados.


E o amor foi partilhado...


Aliviou-se a pressão.


Preparou-se o futuro...


Nove meses mais tarde, agora na profundeza, e na frieza, das dores ventrais, também elas naturais e divinas, Maria recorda, ainda com alguma doce saudade, aquela maravilhosa tarde de Março...



publicado por Pedro às 17:38
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