Palavras escritas; erotismo e sensualidade, imagens da vida; sonhos e realizações. Um mundo em movimento...
Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006
Parte II - Cap III - À descoberta da vida, da vigarice, do prazer...
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Plantado neste movediço lamaçal, prematuramente atirado para os braços da própria vida, durante sete anos, João aprendeu a viver - ou a sobreviver, melhor dizendo -, caindo nesta ratoeira, safando-se daquela; perdendo este amigo, ganhando aquele; aprendendo e apreciando os valores da verdade, da justiça e da moral que o rodeia.


Com onze anos apenas, crescidos num mundo rural encravado para lá do litoral mais rico e industrial, num espaço semi-desenvolvido e culturalmente mais atrasado, entre serras, montes, campos e rios verdes despoluídos, pleno de necessidades e de carências afectivas e materiais, inclusive das mais elementares atracções infantis e juvenis, João via-se agora confrontado com o chamariz da sociedade mais desenvolvida e consumista.
A redonda bola de borracha ou o carrinho feito de lata, desde sempre os brinquedos dos seus sonhos infantis nunca concretizados, provocavam-no agora, dolorosamente, expostos nas montras e escaparates das lojas espalhadas pelas ruas por onde passava.


A doce bola de berlim, e o pastel de mil folhas, ou a sémea fresca do padeiro – cortada em quartos de cinco tostões cada -, eram o embalo para o seu estômago desde sempre vazio e amargurado, como o triciclo ou a bicicleta, eram a miragem e o símbolo do progresso, do novo mundo, que agora, gradualmente, castigadamente, João estava a descobrir...


Enquanto se manteve, primeiro como marçano e depois como caixeiro, João serviu quatro patrões, todos eles pautados por características e feitios bem marcantes e distintos. Com eles aprendeu os valores da honestidade e da integridade, lado a lado com os valores da trafulhice, da falsidade e da falcatrua...


*


O primeiro deles – um tipo bem composto na vida, respeitável e endinheirado -, começou por lhe pagar um escudo por cada dia de trabalho, mais a comida e a roupa, que a ele próprio já não servisse, cento e oitenta escudos por seis meses de trabalho, em troca de uma serventia permanente e quase total. Retribuição ridícula, para quem diariamente mirava, olhos pingando lágrimas da fraqueza e do desejo, as guloseimas e as tentações, provocatoriamente expostas nas confeitarias e nas lojas de brinquedos da Invicta cidade, enquanto que a puberdade juvenil, e os desejos inconsoláveis de menino e moço faziam a aparição e o atiravam para cativantes e inevitáveis aventuras publicamente menos aprovadas.


Foi neste primeiro trabalho que conheceu o Costa.

O Costa – também ele fruto da sociedade crescentemente egoísta, consumista e injusta -, que por ter as mãos mais ladinas que o cérebro, demasiado escorregadias e lestas, já antes tinha conhecido as grades da prisão e o silêncio do abandono.

Sem qualificação nem profissão definida, trabalhador braçal sem saber ler nem escrever, amigo do vinho e do bagaço que a muito custo comprava nas tascas vizinhas, casado com uma mulher que trabalhava a dias nas limpezas, e pai de uma catrefa de filhos menores, o Costa tornou-se, pela força do hábito e da necessidade, no colega mais intimo, no confidente, no instrutor e instigador, no aliado mais próximo e natural de João.

Carente de amigos e de compreensão, pressionado pela sociedade – que tudo tenta vender e tudo tenta comprar -, cedo João viria a cair nas suas mãos. É que iludido pelo chamariz da bicicleta que o Costa constantemente lhe prometia comprar, ameaçado até com denúncias que faria ao patrão, três a cinco escudos, era quanto deveria rapinar todos os dias da gaveta patronal.

Pobre e triste pecúlio, que religiosa e diariamente escondia dentro do autoclismo da retrete, para que mais tarde se cumprisse a promessa de vir a ser repartido entre os dois.
O mesmo Costa que, num dos seus dias de menor sorte, mas de mais forte bebedeira e rebeldia, por ter perdido o tento na língua e o controle nos gestos e nos sentidos, estatela com os dois no olho da rua...

E se não fossem as artes diplomáticas e miraculosas de tio António, o futuro de João teria ficado pela tutoria, estabelecimento criado pelo regime salazarista especializado numa espécie de triagem educacional e social dos jovens delinquentes.


*


Como patrão, a seguir veio o Teixeira, que comercializava drogas e loiças, ferragens e ferramentas, pastas e perfumes, e era pai de duas belas e graciosas raparigas - ambas já com figura e corpinho de mulher -, que só pensava na falcatrua, na vigarice e no lucro que lhe era fácil obter.

Para que no fim do mês justificasse, o abono, de mais uns tostões a quem para ele, diariamente, tanto esforço despendia, depois da reduzida refeição da noite ou aos sábados de tarde, o Teixeira aliciava os empregados a violarem os sacos de cimento, retirando deles - com a ajuda de um tubo em plástico -, quatro a cinco quilos do seu precioso conteúdo, que depois vendia como se nada se tivesse passado. E deste modo tão expedito, acomodado na plenitude da sua imaculada justiça, o patrão Teixeira, que vendia o cimento roubado por dez a quinze escudos, premiava os marçanos com uns escassos e curtos dez e quinze tostões...

E os pobres coitados, para terem mais uns magros tostanitos para uma sessão de cinema no fim da semana, para um cigarrito furtuíto, ou para um doce mais caprichado que compravam na confeitaria da esquina, noite após noite, além das habituais doze horas de trabalho diário, carregavam nos seus braços frágeis de catorze anos, nada mais nada menos, que dois a três mil quilos de peso, a troca de uma esmola quase miserável de trinta a quarenta escudos...

Mas ainda não satisfeito com a violação dos sacos de cimento, o patrão Teixeira obrigava ainda os marçanos a outras subtis maroscas, traficando pela calada da noite e escondidos pelas paredes toscas dos armazéns, a cera que vendiam para o soalho e os móveis; a lixívia para lavar a roupa; a laca para o cabelo, o creme para a cara...


Ao contrário do popular ditado, por muito barata, instrutiva e até benéfica que fosse, nunca João gostou de levar porrada.

Que o digam os seus colegas da escola primária lá das bandas do Paiva, ou então o Zé Piló, marçano na Invicta como ele, que um dia ficou de orelha derrubada, por lhe ter chamado filho da puta...

Mas azares dos azares...


Desde muito cedo, logo que foi contratado, João apaixonou-se pela Milita, a filha mais nova do Teixeira.BR>
Eram os dois de mesma idade, cheios da mesma força de vida, plenos de juventude e de esperança. Nem um nem o outro se preocupavam com o que cada um vestia ou calçava, onde e como nascera, e muito menos com as diferenças sociais e culturais, que apesar de tudo, entre os dois existiam. Era pois com prazer, mas sem maldade, que após os trabalhos escolares dela, e o trabalho dele, os dois se encontravam no armazém, no jardim das traseiras da casa, e até, por vezes, no quarto que João ocupava bem próximo daquele que era ocupado pelas duas irmãs. Sem ambições nem preocupações quanto ao futuro, falavam de banalidades e projectavam sonhos, que um dia, pensavam vir a concretizar.

Ternamente, acariciavam-se.-BR>
Entendiam-se.

Cumpliciavam-se...


Mas assim não pensava e muito menos aceitava, aquele que era simultaneamente o pai dela e o patrão dele!

E quando descortinou, mais abertamente, tão doce relação, reagiu como se ambos estivessem a cometer o maior e mais odiado crime da sociedade...


Depois de um autêntico chinfrim oral, com gestos de pugilista assanhado, atarracado na sua excessiva gordura e no seu tamanho diminuto, o Teixeira atira-se ao João, que ferido no seu orgulho acriançado de apaixonado e amante, se não deixa ficar calado e muito menos quieto.

Palavra, puxa palavra...

Porrada, puxa porrada...

E o soalho sujo, pelos dois, foi beijado várias vezes.

Duas cabeças a sangrar, uma dúzia de chávenas, pratos e tigelas partidas, e o olho da rua, para quem não era da casa nem da família – porque assim é que era de lei e ficava mais certo -, eis o bonito resultado da aventura.


*


Ao contrário do que fez o famoso Onássis – o tal ricalhaço grego que alugou um luxuoso Bateaux Mouche para que, enquanto percorria o rio Senna, em Paris, uma prostituta de alta roda acabasse com a virgindade do filho -, João experimentou – desastradamente, mas mesmo assim experimentou, ou tentou -, aquilo a que se convencionou chamar a primeira vez, num dos santuários da prostituição mais nobre – mas também mais pobre -, num dos bairros mais populares e conhecidos da Invicta. E também ao contrário do tal ricalhaço grego, não foi o pai, mas sim o irmão que o guiou nessa aventura...


Encontraram-se os dois, numa bela tarde domingueira, três anos depois de ambos terem abandonado a aldeia. Falaram da família. Reviveram brincadeiras. Recordaram amigos...
Passearam por jardins públicos, praças, ruas, vielas...>BR>
Depois de petiscaram qualquer coisa numa cervejaria da Trindade, embicaram pela rua do Bonjardim, e pararam, maquinalmente, junto a um grupo de outros marçanos que se agrupavam frente a uma das muitas casas de prostituição que ali existiam.


Quatro degraus de madeira, era quanto bastava galgar para entrar na pequena sala, bafienta e pobremente decorada, onde as meninas – qual delas a mais cândida e oferecida -, hora a hora, dia e noite, aguardavam os potenciais fregueses.

Três delas – que esperavam na sala, sorrindo mecanicamente para quem franqueava a porta -, mostravam os dentes sujos, e já meio apodrecidos, pelo tabaco que gulosamente tragavam. Sentadas num sofá comprido, desconchavado, duas de perna alçada, e a terceira com os pés cruzados debaixo do rabo, com as saias tão levantadas - provocatoriamente e de propósito -, que mostravam as calcinhas rendilhadas, portavam-se como se fosse as vacas leiteiras, com cio, lá das terras do Paiva, à espera de cobrição.
Com os olhos exageradamente pintados de um azul meio violeta e meio avinhado, envelhecido e feio, e com as unhas envernizadas de vermelho demasiado berrante, muito pouco harmonioso e aceitável; com os cabelos, prematuramente envelhecidos com água oxigenada, e com o decote, de peito francamente aberto, que apesar do soutien cruzado teimava em mostrar as mamas murchas e chupadas; agarradas ao longo e fumegante cigarro, com o filtro lambuzado pelo baton avinhado com que decoravam os lábios, que cada uma prendia altaneiramente entre os finos dedos, as balconistas do amor, ou da vida fácil – como alguém um dia teimou em fazer crer -, candidatas a vender um prazer mecânico e frio, formavam um quadro tão negro e assustador, como artificial e desanimador, reflexo talvez, da própria mercadoria que queriam impingir...BR>
E nem o belo quadro com a imagem de uma Vénus toda desnudada e insinuante, espetado sem grandes primores na parede rosada da sala, amenizava o quadro geral apresentado.


De um relance, tão rápido como o raio da trovoada, João chamou à tona da sua jovem memória, os sedosos lábios da Milita e as caricias quentes e afectuosas da Judite.

E porque se julgava já quase caixeiro – habituado a vender bem, e a comprar melhor, e se calhar até por isso -, não se dispunha a perder a virgindade e a iniciar a sua vida e prática sexual por tão pouco, comprando à socapa e pela pressa, gato, que por muito esforço mental que se fizesse, nunca conseguiria passar por lebre!...

Foi pois envergonhado, com medo, e até com nojo dissimulado, desanimado e descolhoado pela mercadoria de tão má qualidade, franca e atrevidamente exposta e oferecida, que em poucos segundos João galgou, apressadamente, atabalhoadamente, as escadas que o separavam da estreita viela, deixando para melhor ocasião e maiores apetites, o prazer da sua primeira vez...


*


Camilo e Ritinha, foram os patrões que acolheram em seguida João.

Senhores socialmente muito educados e respeitados na rua e no bairro, frequentadores habituais da sacristia, das rezas e das novenas, com particular empenho nas missas do domingo, onde a Ritinha tocava órgão e dirigia o côro da igreja de Paranhos.

Mas cedo se desnudou este mundo tão cão e hipócrita, onde as graças a Deus são muitas, mas as obras nobres muito poucas. Onde os salmos à Virgem Santa, cantados em voz alta, substituem as graças à dignidade, ao trabalho e ao pão, a que todos têm o direito, mas nem sempre o acesso...


Com quase dezasseis anos feitos, João partilhava o quarto, a comida e o trabalho com três outros rapazes mais novos ainda. E o mais provável é que assim deveria continuar, até que dentro de pouco tempo a idade da tropa lhe batesse à porta, permitindo-lhe estudar à noite, e até quem sabe, aprender a tocar acordeão, instrumento que desde mocito o encantava.

Mas sem horário que se cumprisse e muito menos respeitasse, nem trabalho que acabasse, com a liberdade e o descanso semanal limitado aos domingos entre as quinze e as dezanove horas, o tempo livre era curto demais.

Cedo João acordou do sonho acalentado e das promessas feitas.

É que, alimentados à força do macarronete guisado com chouriço, e da batata cozida; com pataniscas meramente baptizadas de bacalhau com salsa; sem calorias nem vitaminas suficientes para uma alimentação minimamente equilibrada, refeição deficiente em quantidade e qualidade, era muito pouco para quem crescia a olhos vistos, e trabalhava catorze horas por dia.

As refeições, que era servidas em pequenas marmitas de alumínio – como se de trolhas ou mineiros se tratasse -, eram tão ligeiras e reduzidas, que duas horas passadas, a barriga roncava em jeito de justificada reclamação.

Foi pois mais maduro – fruto das cambalhotas da vida, e já com uns pêlos a crescer no sítio que mais tarde viria a ser o do bigode -, que um dia, arregimentando consigo os outros dois colegas, João se revoltou...

No dia combinado, cumprindo à risca o plano traçado, nenhum deles saiu para as voltas da rua, nem as portas das lojas se abriram aos fregueses.

Discussão acalorada e repetida várias vezes, e mais ameaças não concretizadas, ao fim de quatro horas, com muitos berros e murros descarregados na escrivaninha do patrão pelo meio, a primeira vitória era conseguida: as marmitas iriam crescer mais um pouco, e a comida variar mais!...


*


Aberto às coisas novas da vida e sôfrego de conhecimentos que não recebera na escola, João aproximava-se – sempre que tal lhe era possível -, dos mais velhos, ouvindo as suas histórias e colhendo deles os ensinamentos e conselhos. Foi o que fez com o Zé Ramiro, gasolineiro em serviço nas bombas de combustível instaladas no jardim do Campo Lindo.
Conversador apaixonado, amante de palavra e da História que julgava conhecer, Zé Ramiro, sem saber nem escrever, recitava tintim por tintim, as voltas e desvoltas, os acontecimentos mais vivos e marcantes, daquilo que dizer ser a Segunda Grande Guerra Mundial.

Zé Ramiro falava com devoção, com conhecimento...

Quem não soubesse, diria que tinha participado directamente na própria guerra.

Falava de Hitler e Mossulini; de Dachau e de Auschwitz, ou de Estaline, Roosevelt e Churchill, ou ainda do grande desembarque dos aliados pela Normandia, com pormenores, com familiaridade, como se dos jogadores do Porto, do Boavista ou do Salgueiros se tratasse.


Para Zé Ramiro, as coisas complicadas tornavam-se simples.

De um lado, segundo ele, reinava o fanatismo, o genocídio, os horrores de uma guerra alimentada por carrascos e sanguinários, que conduziriam, inevitavelmente, à destruição da própria humanidade.

Do outro, situava-se a liberdade, o progresso, o bem estar social, a paz, o próprio futuro.
Nem sempre era claro Zé Ramiro. Porque claro não podia ser, nem os carrascos de ditadura Salazarista deixavam!..

Talvez por isso, ou por outras coisas também incompreensíveis, João não compreendia claramente o sentido e as palavras comovedoras, sentidas e apaixonadas do Zé Ramiro, gasolineiro e lavador de carros.

Mas eram as aulas de História possíveis, que nunca tinha tido, prestadas agora gratuitamente, aos domingos de tarde, nas pedras da calçada daquele jardim público de Paranhos.


*


Nos arredores da cidade, junto às portas da Venda Nova, a barbearia do Manuel Pires era o centro do universo bairrista.

Por aqui passavam doutores e operários; empregados e polícias; funcionários públicos e ladrões; padres e ateus...

Conversa a correr fininho, como a água do rio que se dizia Tinto – mas que de tinto nada tinha -, onde os mais diversos casos e acontecimentos, e as coisas da vida real, eram vistas e revistas, até que acabassem por se desnudar por completo.

Era o que se passava com o enfermeiro do bairro, maricas assumido, casado com uma das mulheres mais bonitas e elegante, que por mero acaso - veio a saber-se mais tarde -, também ela era fufa, que noa últimos tempos andava de beiço caído e perdido de amores pelo Pinheiro, musculado militar da GNR, a prestar serviço no quartel de S. Roque.

Ou então com o próprio João, que um dia tinha sido apanhado pela patroa, nas traseiras do armazém, misturado com sacos e caixas de cartão vazias, rebolando-se perdidamente abraçado a uma jovem aciganada, artista de trapézio, que actuava nas noites e nos fins de semana, no circo Guarani.


Também muito badalado, foi o caso da Paulinha Reis – estudante do liceu, com treze anos de idade -, filha do tesoureiro da Associação Dramática do bairro, que estaria prenha de seu tio Alberto, caixeiro-viajante, vinte e cinco anos mais venho...

Uma autêntica vergonha, diziam todos!


Mas a bomba que mais envergonhava ou enciumava a maior parte das mulheres, era o facto de Maria Alice – que contava trinta e seis anos de idade e três de viuva -, de corpo muito esbelto e firme, atraente, alegre, e proprietária da tasca dos petiscos e das bebidas mesmo ao lado da barbearia do Manuel Pires, espraiar sorrateira e languidamente os olhinhos provocadores e matreiros por quem passava, fazendo mesmo, de vez enquando, e sempre que lhe apetecesse, alguns favores aos homens mais atléticos lá do bairro, concorrendo, desde modo tão desleal – segundo as más línguas -, com todas as outras mulheres, que tanto ou mais interessadas que a Maria Alice, mas menos insinuantes, se encobriam com o pudor do manto social e da maldita vergonha mais pecadora...


*


Com dezassete anos quase feitos, quatrocentos escudos de ordenado por mês, nove horas diárias de trabalho de segunda a sábado, faziam de João – agora no seu quarto emprego -, um homem praticamente feito, com outras aspirações, outras responsabilidades, e também outros sonhos...


Sonhos como os que tinha com a bela Lolita!

Quinze anos repletos de luz e de alegria, corpo macio como seda, esguio com as enguias, e doce como o mel...

Uma autêntica perfeição, ricamente embelezada por duas maminhas com bicos em forma de azeitona mal curada.

Falas doces e meigas.

Tudo muito bem abrilhantado e iluminado pelos lindos olhos negros, que, grandes, sorriam, sorriam, e hipnotizavam as próprias cobras do circo onde actuava.

Uma autêntica bruxaria!

Sonhos de uma mulher para a cama, que rapidamente se concretizaram. Com a simpatia a puxar pelo amor, e a juventude para a aventura, um dia de santo milagre, o inevitável aconteceu!


Três semanas de furtivos encontros, de aventuras escondidas e medrosamente vividas, ambos procuraram a recompensa desejada, na companhia querida e quente dos jovens corpos nús. E depois de a troco de um simples ramos de rosas em plástico, lhe ter dado a volta naquele maravilhoso fim de tarde quente nas traseiras do armazém dos patrões, João corre embeiçado e cego, abandonando tudo e todos – o emprego e os amigos -, atrás da sua diva e apaixonada Lolita, actuando ela agora, nuns descampados bravios, lá para as bandas de S. Mamede de Infesta.


Foi a paixão cega aos dezassete anos.


Mas como o sol que pouco dura, numa tarde de Outono, também a aventura terminou. Procurado pelo tio António e pelo irmão Zeca, cedo João teve de regressar a Rio Tinto, deixando para trás a experiência, o calôr e o amor dos inesquecíveis oito dias passados, na rolote número três, do circo Guarani...


*


Como sempre tinha acontecido, rebelde e contestatário, por vezes acriançadamente irresponsável, João quis ser actor, e não só mero espectador, deste teatro que é a própria vida.

E assim, também ele passou a frequentar a barbearia do bairro, o tal ponto de encontro quase obrigatório; o palco de convívio e o fórum da coscuvilhice, mas também do confronto salutar das opiniões, ideias e experiências mais divergentes dos seus frequentadores mais fieis.


Manuel Pires – seu proprietário -, era um barbeiro dos antigos, com mais de quarenta anos de carreira profissional. Anfitrião e animador da cavaqueirice, Manuel Pires tinha sido, em tempos, o representante do respectivo sindicato. Influenciado por esse passado, ou porque outro interesses inconfessáveis ainda o animassem – dizia-se à boca pequena que era comunista -, Manuel Pires fazia dos temas políticos, sindicais e laborais, o mote obrigatório das deambulações e das retóricas do próprio grupo.

À sua volta – autênticos cavaleiros da Távora Redonda -, comungando a discussão, o entusiasmo e por vezes até as opiniões, o grupo era composto pelo João, agora já mais crescidote e promovido a segundo-caixeiro; pelo Tó Guerra, animador de posições anti-colonialistas e defensor acérrimo do Futebol Clube do Porto, músico saxofonista e pai de uma conhecida e gentil cançonetista tripeira; pelo Belinho, profissional de anedotas picantes e políticas, cabeleireiro de senhoras, dono e senhor de gestos finos, duvidosamente ondulantes e provocatórios; pelo Manel Pereira, antigo funcionário dos Caminhos de Ferro, que andava quase sempre de mau humor, resmungando com tudo e com todos, revoltado com a bronquite, que o tinha empurrado antecipadamente para a reforma; e pelo Artur Rodrigues, também ele anti-salazarista ferrenho, simpatizante da oposição política, angariador de seguros nas horas vagas, funcionário da Junta de Freguesia e domo de um valente par de cornos, que sua mulher Eugénia, tinha feito o favor de lhe colocar pouco tempo antes de o abandonar, há cerca de dois anos.


De tudo se falava.

Das histórias do bairro, das suas gentes e dos seus usos e costumes. Da família de uns e do trabalho de outros. Do futebol, das suas tácticas, das vitórias e derrotas, e até, em voz surdina, que os amigos eram poucos e as paredes podiam ter ouvidos, da política do velho ditador e da sua guerra colonial.

E assim, pé ante pé, sem dar por isso nem ter intenção esclarecida, pela calada do próprio interesse ainda inculto, satisfazendo o gosto e a curiosidade, João enterra-se gradualmente neste lamaçal conspirativo, embriagante e sem fim.

Até que um dia, instruído e convencido por tão sábia e distinta assembleia, sem pesar os prós e muito menos os contras, escreveu uma longa carta ao sindicato do comércio, reclamando do baixo ordenado, do horário alargado e das condições de trabalho.


Dois meses passados, como muita pela e choradeira dos seus comparsas e amigos, João estava outra vez no olho da rua...

E só mais tarde – muitíssimo muito mais tarde -, já bem longe e distante do Manuel Pires e dos seus acólitos, sem hipóteses de reconsiderar ou de voltar a trás, é que João se viria a arrepender de tamanha estupidez. É que se tinha queixado, precisamente, dos patrões que melhor o tinham tratado, respeitado e qualificado. Com eles partilhava não só a mesa e a comida, mas também o espaço, a televisão e até, nas noites dos sábados e domingos, o jogo das cartas, das damas e do dominó...



publicado por Pedro às 13:55
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