Palavras escritas; erotismo e sensualidade, imagens da vida; sonhos e realizações. Um mundo em movimento...
Terça-feira, 20 de Junho de 2006
Parte II - Cap III - O caixeiro...
Ribeira.jpg


Plantado neste movediço lamaçal, prematuramente atirado para os braços da própria vida, durante sete anos, João aprendeu a viver - ou a sobreviver, melhor dizendo -, caindo nesta ratoeira, safando-se daquela; perdendo este amigo, ganhando aquele; aprendendo e apreciando os valores da verdade, da justiça e da moral que o rodeia.


Com onze anos apenas, crescidos num mundo rural encravado para lá do litoral mais rico e industrial, num espaço semi-desenvolvido e culturalmente mais atrasado, entre serras, montes, campos e rios verdes despoluídos, pleno de necessidades e de carências afectivas e materiais, carente inclusive das mais elementares atracções infantis e juvenis, João via-se agora confrontado com o chamariz da sociedade mais desenvolvida e consumista.

A redonda bola de borracha ou o carrinho feito de lata, desde sempre os brinquedos dos seus sonhos infantis nunca concretizados, provocavam-no agora, dolorosamente, expostos nas montras e escaparates das lojas enfileiradas pelas ruas por onde passava.
E a doce bola de berlim, e o pastel de mil folhas, ou a sémea fresca do padeiro – cortada em quartos de cinco tostões cada -, eram o embalo para o seu estômago desde sempre vazio e amargurado, como o triciclo ou a bicicleta eram a miragem e o símbolo do progresso, do novo mundo, que agora, gradualmente, castigadamente, João estava a descobrir...


Enquanto se manteve, primeiro como marçano e depois como caixeiro, João serviu quatro patrões, todos eles pintalgados por características e feitios bem marcantes e distintos. Com eles aprendeu os valores da honestidade e da integridade, lado a lado com os valores da trafulhice, da falsidade e da falcatrua...

O primeiro deles – um tipo bem composto na vida, respeitável e endinheirado -, começou por lhe pagar um escudo por cada dia de trabalho, mais a comida e a roupa, que a ele próprio já não servisse, cento e oitenta escudos por seis meses de trabalho, em troca de uma serventia permanente e quase total. Retribuição ridícula, para quem diariamente mirava, olhos pingando lágrimas pela fraqueza e pelo desejo, as guloseimas e as tentações provocatoriamente expostas nas confeitarias e nas lojas de brinquedos da Invicta cidade, enquanto que a puberdade juvenil, e os desejos inconsoláveis de menino e moço faziam a aparição e o atiravam para cativantes e inevitáveis aventuras publicamente menos santificadas.


Foi neste primeiro patrão que conheceu o Costa.

O Costa – também ele fruto da sociedade crescentemente egoísta, consumista e injusta -, que por ter as mãos mais ladinas que o cérebro, demasiado escorregadias e lestas, já antes tinha conhecido as grades da prisão e o silêncio do abandono.

Sem qualificação nem profissão definida, trabalhador braçal sem saber ler nem escrever, amigo do vinho e do bagaço que a muito custo comprava nas tascas vizinhas, casado com uma mulher que trabalhava - quando trabalhava -, a dias nas limpezas, e pai de uma catrefa de filhos menores, o Costa tornou-se, pela força do hábito e da necessidade, no colega mais intimo, no confidente, no instrutor e instigador, no aliado mais próximo e natural de João.

Carente de amigos e de compreensão, pressionado pela sociedade – que tudo tenta vender e tudo tenta comprar -, cedo João viria a cair nas suas mãos.

É que iludido pelo chamariz da bicicleta que o Costa constantemente lhe prometia comprar, ameaçado até com denúncias que faria ao patrão, três a cinco escudos, era quanto deveria rapinar todos os dias da gaveta patronal.

Pobre e triste pecúlio, que religiosa e diariamente escondia dentro do autoclismo da retrete, para que mais tarde se cumprisse a promessa de vir a ser repartido entre os dois.
O mesmo Costa que, num dos seus dias de menor sorte, mas de mais forte bebedeira e rebeldia, por ter perdido o tento na língua e o controle nos gestos e nos sentidos, estatela com os dois no olho da rua...

E se não fossem as artes diplomáticas e miraculosas de tio António, o futuro de João teria ficado pela tutoria, estabelecimento criado pelo regime salazarista especializado numa espécie de triagem educacional e social dos jovens delinquentes.


*


A seguir veio o Teixeira, que como patrão comercializava drogas e loiças, ferragens e ferramentas, pastas e perfumes, e era pai de duas belas e graciosas raparigas - ambas já com figura e corpinho de apetitosa mulher -, que só pensava na falcatrua, na vigarice e no lucro que lhe era fácil obter.

Para que no fim do mês justificasse o abono de mais uns tostões a quem para ele, diariamente, tanto esforço despendia, depois da reduzida refeição da noite ou aos sábados de tarde, o Teixeira aliciava os empregados para que violassem os sacos de cimento, retirando deles - com a ajuda de um tubo em plástico -, quatro a cinco quilos do seu precioso conteúdo, que depois vendia como se nada se tivesse passado. E deste modo tão expedito, acomodado na plenitude da sua imaculada justiça, o patrão Teixeira, que vendia o cimento roubado por dez a quinze escudos, premiava os marçanos com uns escassos e curtos dez e quinze tostões...

E os pobres coitados, para terem mais uns magros tostanitos para uma sessão de cinema no fim da semana, para um cigarrito fortuito, ou para um doce mais caprichado que compravam na confeitaria da esquina, noite após noite, além das habituais doze horas de trabalho diário, carregavam nos seus braços frágeis de catorze anos, nada mais nada menos que dois a três mil quilos de peso, a troca de uma esmola quase miserável de trinta a quarenta escudos...

Mas ainda não satisfeito com a violação dos sacos de cimento, o patrão Teixeira obrigava ainda os marçanos a outras subtis maroscas, traficando pela calada da noite e escondidos pelas paredes toscas dos armazéns, a cera que vendiam para o soalho e os móveis; a lixívia para lavar a roupa; a laca para o cabelo, o creme para a cara...


Ao contrário do popular ditado, e por muito barata, instrutiva e até benéfica que fosse, nunca João gostou de levar porrada...

Que o digam os seus colegas da escola primária lá das bandas do Paiva, ou então o Zé Piló, marçano na Invicta como ele, que um dia ficou de orelha derrubada por lhe ter chamado filho da puta...

Mas, azares dos azares...

Desde muito cedo, logo que foi contratado, João apaixonou-se pela Milita, a filha mais nova do Teixeira.

Eram os dois de mesma idade, cheios da mesma força de vida, plenos de juventude e de esperança. Nem um nem o outro se preocupavam com o que cada um vestia ou calçava, onde e como nascera, e muito menos com as diferenças sociais e culturais que apesar de tudo, entre os dois, existiam. Era pois com prazer, mas sem maldade, que após os trabalhos escolares dela, e o trabalho dele, os dois se encontravam no armazém, no jardim das traseiras da casa, e até, por vezes, no quarto que João ocupava bem próximo daquele que era ocupado pelas duas irmãs. Sem ambições nem preocupações quanto ao futuro, falavam de banalidades e projectavam sonhos, que um dia, pensavam vir a concretizar.

Ternamente, acariciavam-se.

Entendiam-se.

Cumpliciavam-se...

Mas assim não pensava e muito menos aceitava, aquele que era simultaneamente o pai dela, e o patrão dele!

E quando descortinou, mais abertamente, tão doce e terna relação, reagiu como se ambos estivessem a cometer o maior, e o mais odiado crime da sociedade...


Depois de um autêntico chinfrim oral, com gestos de pugilista assanhado, atarracado na sua excessiva gordura e no seu tamanho diminuto, o Teixeira atira-se ao João, que ferido no seu orgulho acriançado de apaixonado e amante, se não deixa ficar calado e muito menos quieto.

Palavra, puxa palavra...

Porrada, puxa porrada...

E o soalho sujo, pelos dois, foi beijado várias vezes.

Duas cabeças a sangrar, uma dúzia de chávenas, pratos e tigelas partidas, e o olho da rua, para quem não era da casa, nem da família – porque assim é que era de lei e ficava mais certo -, eis o bonito resultado da aventura.



publicado por Pedro às 17:07
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