Palavras escritas; erotismo e sensualidade, imagens da vida; sonhos e realizações. Um mundo em movimento...
Terça-feira, 6 de Junho de 2006
A primeira vez....
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Ao contrário de Onássis – o tal ricalhaço grego que alugou um luxuoso Bateaux Mouche para que, enquanto percorria o rio Senna, em Paris, uma prostituta de alta roda acabasse com a virgindade do filho -, João viveu – desastradamente, mas mesmo assim viveu ou tentou viver -, aquilo a que se convencionou chamar a primeira vez, num dos santuários da prostituição mais nobre – mas também mais pobre -, num dos bairros mais populares e conhecidos da Invicta. E também, ao contrário do tal ricalhaço grego, não foi o pai, mas sim o irmão, que o guiou nessa doce aventura...


Encontraram-se os dois, numa amena tarde domingueira, três anos depois de ambos terem abandonado a aldeia natal. Falaram da família. Reviveram brincadeiras. Recordaram amigos...

Percorreram jardins públicos, praças, ruas, vielas...

Depois de petiscaram qualquer coisa numa cervejaria da Trindade, embicaram pela rua do Bonjardim, e pararam, maquinalmente, junto a um grupo de outros marçanos que se agrupavam frente a uma das muitas casas de prostituição que ali funcionavam.


Quatro degraus de madeira, era quanto bastava galgar para entrar numa pequena sala, bafienta e pobremente decorada, onde as meninas – qual delas a mais cândida e oferecida -, hora a hora, dia e noite, aguardavam os potenciais fregueses.

Três delas – que esperavam na sala sorrindo mecanicamente para quem franqueava a porta -, mostravam um fio de dentes sujos e já meio apodrecidos pelo tabaco que gulosamente tragavam. Sentadas num sofá comprido, desconchavado, duas de perna alçada, e a terceira com os pés cruzados debaixo do rabo, com as saias tão levantadas - provocatoriamente e de propósito -, que mostravam as calcinhas rendilhadas, portavam-se como se fosse as vacas leiteiras, na maré do cio, lá das terras do Paiva, à espera de cobrição.

Com os olhos exageradamente pintados de um azul meio violeta e meio avinhado, envelhecido e feio, e com as unhas envernizadas de vermelho berrante, muito pouco harmonioso e aceitável; com os cabelos, prematuramente envelhecidos com água oxigenada, e com o decote em bico, de peito francamente aberto, que apesar do soutien cruzado teimava em mostrar as mamas murchas e chupadas; agarradas ao longo e fumegante cigarro, com o filtro lambuzado pelo baton avinhado com que decoravam os lábios, que cada uma prendia altaneiramente entre os finos dedos, as balconistas do amor, ou da vida fácil – como alguém um dia teimou em fazer crer -, candidatas a vender um prazer mecânico e frio, formavam um quadro tão negro e assustador, como artificial e desanimador, reflexo talvez, da própria mercadoria que queriam impingir...

E nem o belo quadro com a imagem de uma Vénus toda desnudada e insinuante, espetado sem grandes primores na parede rosada da sala, amenizava o quadro geral apresentado.


De um relance, tão rápido como o raio da trovoada, João puxou à tona da sua jovem memória, os sedosos lábios da Milita e as caricias quentes e afectuosas da Judite.
E porque se julgava já quase caixeiro – habituado a vender bem e a comprar melhor, e se calhar até por isso -, não se dispunha a perder a virgindade e a iniciar a sua vida e prática sexual por tão pouco, comprando à socapa e pela pressa, gato de fraca raça, que por muito esforço mental que se fizesse, nunca conseguiria passar por lebre!...

E foi envergonhado, com medo, e até com nojo dissimulado, desanimado e descolhoado pela mercadoria de tão má qualidade, franca e atrevidamente exposta e oferecida, que em poucos segundos João galgou, apressadamente, atabalhoadamente, as escadas que o separavam da estreita viela, deixando para melhor ocasião e maiores apetites, o prazer da sua primeira vez...



publicado por Pedro às 22:36
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