Palavras escritas; erotismo e sensualidade, imagens da vida; sonhos e realizações. Um mundo em movimento...
Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2006
Parte II - Capítulo II - Na cidade...
PortoAntigo.jpg

Depois de tanto baloiçar e saltitar, com o estômago às avessas e o cu das calças – e não só, a escaldar por tanto roçar no duro banco da camioneta, a imponente, invicta, e misteriosa cidade entra repentinamente pelos olhos dentro, e a curta mas demorada viagem, termina nas Fontaínhas.
João, de olhos fixos, esbugalhados, estava espantado.
As pessoas pareciam loucas, correndo desenfreadamente pelas ruas, metendo-se perigosamente à frente dos muitos automóveis, que buzinando, aflitivamente, rolavam por entre quem corria.
E os eléctricos – carros feitos em madeira pintados de amarelo, com bancos corridos e de rabo preso, lá bem no alto aos fios condutores da electricidade -, abarrotavam até às portas escancaradas, e com os miúdos perigosamente dependurados pelos lados, guinchavam pelos carris de ferro e aço. O condutor, a quem chamavam de guarda-freio, nas curvas mais apertadas das ruas, com o gosto pela música ou com receio de atropelar quem pela frente se aventurasse, pedalava na campainha que tinha por baixo de suas botas.
João nunca vira tanta gente junta,
Tanta confusão,
Tanto movimento de carros, de autocarros, de eléctricos...

Na garagem onde a carreira terminou a sua marcha, assustadoramente enorme para o jovem João, o movimento das pessoas, das malas, dos embrulhos, dos caixotes, dos sacos e das outras muitas camionetas que constantemente chegavam e partiam; o fedor enervante à gasolina e ao gasóleo queimado pelo ruidoso trabalhar dos motores, e derramado pelo chão, davam origem a um ambiente pastoso e pesado que sufocava, ao ponto de provocar apreensão e medo.

De rompante, com a garra que foi buscar não se sabe onde, João corre para a porta da garagem, e já na movimentada rua, o coração quase que lhe pára de tanto bater...
Mas, onde está o ar puro, e a paisagem aberta, livre, amena e verde, que se desfruta lá na aldeia?...
Interroga-se.
E o ânimo começa a esmorecer...
E o encanto também!
E nem o grosso embrulho debaixo do braço com a roupa,
Nem a sandes de queijo amarelo que trazia no bolso das calças,
Nem o gosto pela aventura, que no decorrer da viagem tinha alimentado, lhe deram alento e apagaram tanta tristeza.



*

João já não está só...

De pé, no meio da ampla, escura e fedorenta garagem, como noutras vezes já tinha feito, tio António esperava.
João não o conhece, mas sua mãe, com os sucessivos e duros sermões, já lho tinha tornado bem familiar.
Trata-se de um homem baixo, forte - quase gordo e atarracado. Mas simpático e amável, quase sempre com um sorriso nos lábios, sempre pronto a ajudar quem a ele recorresse, mas em particular quem viesse da sua aldeia natal – lá para as bandas da Caniçada, em Braga -, ou que chegasse da aldeia da mulher, como agora acontecia com João e já antes acontecera com Zeca seu irmão mais velho.

Também agora Maria voltara a escrever, e com grito de sentida angústia e esperança, pedia:

- “... não sei que mais lhe fazer...
Aqui não tem futuro.
Por favor, faça-me qualquer coisa...”




*


E qualquer coisa iria ser feito.

Ser marçano ou caixeiro, não era trabalho que provocasse inveja a ninguém. Mas novato, sem os grandes estudos nem profissão definida, e ainda por cima sem grandes padrinhos a quem recorrer, era o melhor que se conseguiria arranjar. Aliás, esse era o destino profissional de quase todos aqueles que, como João, vinham das terras do interior, sozinhos ou com ajuda, e se aventuravam pelas principais vilas e cidades do litoral.

O dia começava bem cedo.
E acabava bem tarde.
Palmilhando por vielas e calças - umas mais típicas e pobres e outras mais aburguesadas -, longos caminhos de oito a dez quilómetros, lá andavam diariamente os marçanos e caixeiros, de porta em porta, manhã bem cedo, recolher as encomendas dos fregueses mais afidalgados.
Da parte de tarde, de caixote às costas, agora já carregados que nem o velho burro do Quim Moleiro lá das terras de Montemuro e do Paiva, encharcados pela chuva no inverno, e tostados pelo sol quente nas tardes do verão, voltavam a palmilhar os mesmos caminhos, satisfazendo os gostos e os caprichos duma sociedade cada vez mais consumista, mais desigual e ingrata.
À noite, já com as portas dos estabelecimentos encerradas, muitas das vezes com a fome a socar o estômago, e o cinto sem furos para a conter, tinham que praticar as maroscas e vigarices nas mercadorias e nos produtos que vendiam, arrumar tudo com muito zelo e diligência, reabastecer as prateleiras e os balcões, fazer marcações de preços, e lavar o soalho com lixívia e sabão amarelo, dando força e energia à escova para mais fazer brilhar o chão, que no dia seguinte, todos voltavam a pisar e a sujar...

Desde o cedo levantar – normalmente às seis -, até ao tarde deitar – por volta das vinte e três ou meia noite, os marçanos tripeiros não tinham direito nem tempo para o descanso. E ainda por cima, volta e não volta, eram brindados com pontapés nos traseiros e puxões de orelhas, sempre que se perdiam ou esqueciam nas brincadeiras de rua, ou por trás do balcão, se mostravam menos atentos e mais atrevidos...
Mas apesar de tudo – dos caixotes carregados, dos caminhos percorridos, do sol e da chuva -, a rotina destas voltas diárias funcionavam como um tubo de escape por onde se esfumava a raiva e a revolta, como recreio diário gratuito, quando se entretinham no joguito da bola de trapo ou do botão, do arco ou do espeto, com os outros colegas de manhas e de ofício, nas ruas, nas praças, nas ilhas e nas vielas dos bairros das Antas, da Boavista, do Bulhão, da Pasteleira ou da Ribeira mais pitoresca, ou então se enroscavam em brincadeiras e namoros prematuros menos santificados, por detrás dos arbustos e nos telheiros, nos jardins das quintas e das moradias, com as costureirinhas e as sopeiras de avental branco...

Na sua grande maioria, os marçanos e os caixeiros viviam em casa dos próprios patrões, sendo pobremente alimentados à base da batata cozida, do feijão vermelho guisado, do macarronete, e do arroz mais miúdo. A alimentação era tão pobre e tão diminuta, que mal chegava para alimentar o corpo que estava a crescer e para aquecer o próprio estômago. A pouca e raríssima carne de porco – geralmente toucinho e chouriço enlatado -, as barbatanas e pataniscas de bacalhau, e a sardinha de conserva, não passavam de um bonito ramalhete com que lhes enfeitavam as marmitas nos dias de maior festa.
Chocolate, queijo e leite, nem vê-los!
E doces e pasteis, só se fossem os que os próprios marçanos roubavam nas mercearias e confeitarias onde trabalhavam. Muito pouco de hortaliças e muito menos ainda de frutas. E a carne de vaca - porque era muito cara e neles mal empregue -, só lhe tomavam o gosto de mês a mês, quando o não era somente nos dias da santa padroeira local...

Com os sindicatos domesticados e controlados pelo regime salazarista, desprotegidos, quer pela legislação oficial, quer por qualquer moral religiosa ou patronal, prematuramente empurrados para o fosso do trabalho infantil, estes meninos-homens do comércio – que anos mais tarde - alguns deles - viriam a ser donos e senhores dos principais espaços comerciais das cidades do país -, eram obrigados a tratar da própria roupa e a fazer os outros trabalhos domésticos, como fazer as camas e despejar os penicos; lavar os pratos e as panelas; engraxar as botas e os sapatos; tratar dos cães, das galinhas, das pombas, das rolas e dos coelhos; limpar o pó, encerar os móveis e os soalhos.
Num aprumo do mais alto enxovalho, muitas das vezes até eram obrigados a cortar os calos, a limar as unhas, e a lavar os pés, aos patrões e às patroas falsamente afidalgadas...


publicado por Pedro às 13:26
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