Palavras escritas; erotismo e sensualidade, imagens da vida; sonhos e realizações. Um mundo em movimento...
Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2005
Parte II - Capítulo I - Rio abaixo
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Seis horas da manhã.
Trémula, com a voz embargada pela angústia que lhe entristece o coração e destroça a alma, Maria abraça o filho contra o seu peito frágil e quente, protegendo-o do madrugador e gélido frio da serra que lhe greta o rosto e as mãos, assim como dos males mais ingratos que alastram pelo imenso e largo mundo, que ela própria teme e desconhece.
Pequerrucho a seu lado, João que mal lhe chega aos ombros, não compreende o seu olhar triste e distante, como também não compreende o surdo choro que lhe faz tremer o peito e humedecer os lindos olhos. É que para ele partir – e a exemplo do que acontecia com todos os outros jovens da aldeia -, não constituía qualquer sacrifício, mas antes pelo contrário, tornava-se numa autêntica festa, no sabor de mais uma aventura, do mundo desconhecido, daquilo que para ele seria o mais desejado e o mais apetecido...
Na verdade, como poderiam os mais jovens – ainda crianças, com um escasso metro de altura e uma dezena de anos apenas -, compreender os gestos e comportamentos mais tristes dos adultos, que desalmadamente se entristecem e choram, sempre que os filhos abandonam o seio familiar?...

Para os pais, trata-se de uma triste realidade.
Um sacrifício.
Uma fatalidade...
É o afastamento – mais um -, de uma importante fatia, do todo que constitui o lar familiar. E além disso, é mais um facto ocorrido a contragosto, porque assim, deste modo tão violento, perdem o controle sobre as asneiradas e as traquinices dos filhos, privando-se ainda, da preciosa ajuda que estes lhes davam nos trabalhos da casa e dos campos.
Mas para os filhos – que deste modo se viam livres dos puxões de orelhas, dos pontapés no traseiro e das vassouradas de giestas pelas costas -, partir da aldeia, do chamado doce lar, do tal seio familiar, era uma festa, uma recompensa...
Acabava-se a porrada, os sermões, os castigos, as privações...

Seguindo o exemplo dos outros passageiros, mãe e filho esperam de pé, disciplinadamente, impacientemente, a chegada da velha carreira, que – sempre a mesma -, alguns anos antes, também pela madrugada bem alta, transportara os irmãos mais velhos e o pai de João, para as margens mais distantes do outro lado do mundo.
Por fim, meia hora atrasada – também como sempre -, chiando e fumegando por todos os lados, hei-la que chega.
Ladina e imponente.
Autêntica instituição rural, que todos respeitam e acarinham...

Enquanto que os passageiros mais retardatários se apressam a colocar as canastras e os sacos; as hortaliças; as frutas; as galinhas e os coelhos no tejadilho da venha camioneta, preocupada com as constantes travessuras do filho, Maria abeira-se do tio Sebastião, cobrador e mandante da carreira – que também ele tudo e todos conhece -, e pelos olhares de esguelha e pelos gestos dos dois, compreende-se que lhe pede para que vigie e olhe pelo filho durante a viagem, não vá ele fisgar-se, por obra do diabo ou do divino espirito santo – nunca se sabe -, por caminhos menos recomendados.

Depois de muita canseira e de maior alvoroço, a carreira apita três vezes.
E no rosto de que fica, amargamente - mas também no de quem parte -, as lágrimas correm grossas e salgadas. Molham-se as caras rosadas gretadas e utilizam-se os lenços encardidos. Incham os olhos negros e profundos...
E uma vez mais, cumprindo o que já vinha sendo hábito, há mais gente que parte, indo para bem longe da terra que os viu nascer, onde o trabalho escasseia e o milho e centeio pouco cresce, para o negro e fundo túnel da vida, para a terra que pertence a todos, mas que não é de ninguém.
E até ao João, criançola com a mania e a fama da dureza e da esperteza - como muitos afirmavam -, se lhe humedeceram inexplicavelmente os grandes olhos brilhantes e castanhos...


*


As quatro longas horas que demoraram a percorrer os cinquenta e poucos quilómetros, por uma estrada com certeza desenhada à pressa, estreita, vesga, cheia de lombas e de buracos que separam as verdes terras do vale do Paiva e a Invicta cidade, transformam-se num autêntico calvário.
O constante ziguezague da camioneta obriga os passageiros a saltitar no duro assento, e a lançar, pela borda fora, os restos do leite de cabra e do trigo seco, que de madrugada bem cedo, alguns tinham comido.
Pára agora aqui, e depois ali.
Ajuda este, e apoia aquela.
Muitas das vezes teatro de negócios, de amizades, e de namoricos que se prolongavam muito para além da própria viagem, sempre foi assim a velha carreira do Escamarão.

Carregada de homens, mulheres, rapazes e raparigas...
Mas também de porcos, de galinhas e de coelhos, de frutas, hortaliças, batatas e de vinho, ora para comprar e vender na grande cidade, ora para retribuir um favor que se tinha obtido do senhor deputado, do prior, do policia ou do doutor, que em horas de aflição e de maior angústia, a custo, conseguira apressar uma consulta no hospital ou uma licença na prisão...

Pouca gente se deslocava à cidade.
E os poucos que se não viam obrigados à emigração – sobretudo para o Brasil -, ficavam-se pelas terras mais vizinhas. Não admira pois, que os passageiros mais frequentes da velha carreira fossem os negociantes de gado para se deslocarem às feiras de Penafiel e de Valongo; os mineiros do Pejão, que arrancavam, esfarrapadamente, das profundas entranhas o negro carvão e o magro salário – mas também a cegueira e a tuberculose; as ladinas e atrevidas peixeiras e louceiras, que no regresso da viagem, de canastra à cabeça, vendiam o peixe, as tigelas, os pratos e os copos de porta em porta; os magalas e os policias, que tinham obtido permissão de licença, e ainda alguns doentes, que se deslocavam ao Porto, para uma consulta mais melindrosa, e que noutro lado não encontravam.


*


Outros meninos e outros moços - todos eles companheiros de infortúnio e de destino, que de tenra idade, bem cedo, também abandonavam a terra natal, os familiares e os amigos, procurando melhor sina e melhor sorte -, faziam a viagem em transporte bem mais pitoresco e tradicional.

Douro abaixo, misturados com os gigos das frutas, os molhos de carqueja, as tocas do pinheiro bravo e as pipas do vinho verde, enrolados em mantas e casacos velhos, lá vinham eles, igualmente com o coração aos pulos pela angústia da aventura e da insegurança, empoleirados, perigosamente, no alto do castelo dos barcos rabelos, desde as suaves bordas da Régua, até ao velho cais da Ribeira.
De vez em quando, com a autoridade de quem já é mestre e patrão há muito tempo, lá se ouvia a voz forte do barqueiro:

- Cuidado rapazito!...
Olha que se caíres ao rio, não te vou lá buscar...


Depois, era vê-los mais tarde, aos domingos, entre o almoço e o jantar, nos jardins públicos da Cordoaria, do Marquês, das Antas e da Boavista, de papo alçado e abonecados, sapatilhas de trapo nos pés – ou mesmo descalços -, alegremente rodopiando ao som da gaita de beiços ou da velha concertina, lado a lado com os magalas, desafiando as numerosas e alegres raparigas, jovens e lindas sopeiras, que como todos eles, também elas vinham do interior, servir patrões e patroas, muitas das vezes, sem estofo nem dignidade...


publicado por Pedro às 13:01
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